Mercado respira

Depois de uma onda de nervosismo inicial, investidores dão pausa para pensar melhor sobre efeito Trump na economia.

Fernando Dantas

22 Novembro 2016 | 11h20

O mercado se acalmou um pouco nos últimos dias, e hoje o dólar chegou a ser negociado abaixo de R$ 3,35 enquanto esta coluna era redigida. Segundo um conhecido e respeitado gestor de recursos, a trégua, proveniente de uma combinação de fatores externos e internos, é uma pausa depois de um período frenético “de precificação de muitas notícias pelo valor de face”.

Após um day-after da eleição de Donald Trump surpreendentemente pacífico, os mercados globais engataram a partir do segundo dia uma hiper-reação aos planos do presidente eleito de cortar impostos, lançar investimentos em infraestrutura, proteger fabricantes americanos e desregulamentar.  A visão geral é de que se trata de uma plataforma que vai gerar crescimento, inflação e juros altos.

O gestor mencionado acima, no entanto, nota que ainda há muita incerteza, inclusive sobre o formato do “pacote fiscal”, o que pode influenciar razoavelmente suas consequências sobre a economia dos Estados Unidos e global. Assim, ele comenta, “as pessoas resolveram colocar os lucros no bolso e aguardar informações mais concretas, que devem vir só a partir de 20 de janeiro (data da posse de Trump)”. Na verdade, a rentabilidade do título referencial de dez anos do Tesouro americano ainda está muito perto do seu máximo neste ciclo de alto, mas hoje registrava as 12:30 recuo para 2,32%.

O fator doméstico, que contribui hoje para uma bolsa em alta e dólar e juros futuros em queda, é a intervenção eficaz e rápida do Banco Central e do Tesouro, aumentando a oferta de swaps cambiais e a demanda por títulos de renda fixa. Mais que os volumes, segundo o gestor, contou a mensagem, que ele resume como “olha, estamos aqui, não há porque os agentes se afobarem para ajustar suas posições”.

Nos próximos dias e semanas, é provável que o mercado externo continue a ditar o humor do doméstico, com sucessivas ondas de precificação prospectiva do impacto dos planos de Trump na economia mundial. Numa visão otimista, é possível esperar que novas vagas de nervosismo com a “Trumponomics” possam ser menos intensas que a primeira, uma vez que os fatores de surpresa e choque já estão em estado adiantado de dissipação.

Um ponto importante a se saber é o timing relativo do pacote de iniciativas do presidente eleito dos Estados Unidos. Com a economia norte-americana próxima do pleno emprego, medidas de impulso fiscal e que estimulem o mercado de trabalho muito a curto prazo possivelmente acenderão o alarme inflacionário mais rapidamente, e podem deflagrar o previsto ciclo de um surto passageiro de crescimento, que provoque inflação e seja abortado por uma alta forte de juros.

Se, por outro lado, o impulso fiscal for mais gradativo, seria possível que medidas pelo lado da oferta, como a desregulamentação, ajudassem a relançar o processo de elevação da produtividade norte-americana, fazendo que um crescimento mais robusto, quando viesse, pudesse ser menos inflacionário.

Este segundo cenário, evidentemente, seria bem mais positivo para o Brasil. Em termos do que pode ser feito internamente para acolchoar novas rodadas de elevação da percepção de risco global, a pauta é muito simples e conhecida: acelerar as medidas de ajuste fiscal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/11/16, segunda-feira.