Mercado se anima com boa notícia externa e falta de notícia no Brasil

Desde novembro, os ativos brasileiros estão indo muito bem, obrigado. Segundo um respeitado gestor, fatores externos, como vacina e eleição de Biden, se somam a o que "não" aconteceu internamente, como extensão do auxílio emergencial, para impulsionar mercados no Brasil.

Fernando Dantas

11 de dezembro de 2020 | 21h36

Desde novembro, o mercado de ativos brasileiros teve uma grande melhora: bolsa em alta, dólar em baixa, e curva de juros ‘desempinando’ significativamente.

Um conhecido e respeitado gestor de recursos tem uma fórmula simples para descrever o que está se passando:

“A melhora tem a ver com o que aconteceu lá fora e com o que não aconteceu aqui dentro”.

Ele nota que, no início do segundo semestre, o panorama era de uma economia global no fundo do poço após a fortíssima recessão do segundo trimestre. Ativos de risco, como os do Brasil, sofrem particularmente em recessões globais, quando aumenta a aversão a risco.

Dessa forma, esses ativos de risco ficaram baratos, mas a oportunidade de comprá-los dependia das perspectivas da retomada mundial.

Havia grandes incertezas. Ocorreria ou não uma segunda onda da Covid-19? A vacinação chegaria a tempo ou não de salvar a retomada global? Qual seria o resultado das eleições norte-americanas e seu impacto na economia do mundo?

A partir de novembro, essas dúvidas já estavam esclarecidas, ou pelo menos muito reduzidas. Há de fato uma segunda onda, mas a vacinação está chegando muito mais rápido do que se previu no início da pandemia e a perspectiva é de que a crise sanitária global seja resolvida ao longo do primeiro semestre do ano que vem.

Na Inglaterra a vacinação já começou, em Nova York está para começar. Mesmo que, de início, só seja possível, em termos de quantidade e logística, vacinar os grupos de maior risco, isso já deve reduzir enormemente a letalidade do coronavírus – diminuindo a necessidade de isolamento social e pavimentando a retomada dos serviços.

“Há a percepção de que, em termos globais, no embate entre a segunda onda e a vacina, a vacina vai vencer”, diz o gestor.

A vitória de Joe Biden nas eleições americanas acabou sendo vista também como um estímulo à economia global, principalmente porque se combinou com alta probabilidade de que o Senado retenha maioria republicana (ainda há duas cadeiras pendentes de segundo turno, com forte favoritismo dos republicanos).

Sai a imprevisibilidade e a belicosidade de Trump e entra um presidente democrata centrista cujo eventual pendor para tributar e regular em excesso será colocado em xeque pelo Senado republicano.

Esses desdobramentos limparam incertezas sobre a retomada global, aumentando o apetite por risco. Foi a vez, portanto, de os ativos mais arriscados terem a sua festa.

Anteriormente, já havia bonança em parte dos ativos de menos risco, impulsionada pela mega resposta monetária e fiscal à pandemia por parte das autoridades econômicas, especialmente do mundo rico.

Agora, dissipadas as dúvidas, há a volta do apetite de risco junto com a batelada de estímulos de bancos centrais e Tesouros. A percepção, do ponto de vista mundial, é de que não só há uma retomada em curso, mas vindo mais cedo e de forma mais intensa do que se esperava.

Em termos de setores econômicos, no período de junho a novembro, quando havia BCs e Tesouros bombeando, mas alta aversão a risco, o bom desempenho ficou por conta das ações do “kit Covid”, ligadas à tecnologia, produtos de delivery, itens de consumo que podem ser baixados no computador, entre outros.

Com a remoção de incertezas mais recentemente, foi a vez das commodities e dos bancos (anteriormente penalizados pelo medo da inadimplência ligada à recessão).

Bancos e exportadoras de commodities, como Petrobrás e Vale, têm grande peso nas bolsa brasileira, nota o gestor, o que explica o bom desempenho recente do Ibovespa, ainda não tão evidente em segmentos ligados a consumo.

A segunda parte da história é o que não aconteceu internamente.

Na visão do gestor, estava relativamente precificado no mercado um momento difícil nas semanas após a eleição municipal, com o governo querendo estender o auxílio emergencial para 2021 e dando sinais de disposição de burlar o teto dos gastos.

Em setembro e outubro, essas preocupações do mercado adicionaram muito prêmio de risco aos ativos brasileiros.

O pós-eleição, entretanto, em vez de ser explosivo, acabou não sendo nada. As decisões estão sendo todas adiadas para 2021, para depois que o Congresso reabrir em fevereiro. Pelo menos é o que se tem até agora.

Ele acrescenta que, quando não há nada, “o status quo é o teto de gastos, é o que está na lei”.

É óbvio que a coisa ainda pode desandar, mas há mais tempo para se buscarem soluções que não destruam de vez a sustentabilidade fiscal. E, principalmente, a temida ruptura do regime fiscal pelo menos não começou a acontecer agora, como se temia.

Todo esse conjunto de acontecimentos externos e “não acontecimentos” internos pegou os ativos brasileiros muito combalidos, com dólar perto de R$ 5,6, bolsa com desempenho abaixo dos pares e a ponta longa da curva de juros com muito prêmio de risco.

“E aí, tivemos ventos externos extremamente favoráveis e, no Brasil, desta vez a inércia jogou a favor”, nota o gestor.

Ele tem completa noção de que o jogo pode virar. Há, por exemplo, a eleição para a Câmara, durante a qual, no passado, disputas que deterioraram para guerras sangrentas entre o Executivo e parcela do Legislativo levaram à deterioração da governabilidade.

E, quando chegar a hora de tomar decisões no ano que vem, sempre é possível cometer grandes erros, como mostra a história brasileira.

Há a chance, porém, de “não atirar no pé”, como ele diz. E, por enquanto, o negócio é surfar a boa onda de ativos, um consolo num fim de ano em que nem se pode comemorar as festas “comme il faut”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/12/2020, sexta-feira.