Mercado se ilude ao torcer contra Dilma?

Fernando Dantas

28 de março de 2014 | 18h53

O mercado financeiro parece estar reagindo de forma positiva a notícias que indiquem uma redução do favoritismo da presidente Dilma Rousseff nas eleições deste ano. A visão aparentemente é a de que tanto o tucano Aécio Neves quanto Eduardo Campos, do PSB – os candidatos da oposição –, fariam os ajustes que relançariam a economia brasileira numa trajetória de crescimento equilibrado.

Em particular, a oposição favoreceria uma gestão mais eficiente e menos influenciada pelos interesses do governo em estatais importantes para a Bolsa, especialmente Petrobrás.

Um experiente observador do cenário econômico e político, e que conhece profissionalmente o mercado financeiro, coloca uma série de interrogações sobre a felicidade do mercado com as dificuldades da candidatura Dilma.

Para começar, os últimos números divulgados na pesquisa CNI-Ibope não são tão desfavoráveis para Dilma, se for considerado que a soma dos que querem continuidade com os querem mudança com a presidente é de aproximadamente 50%. Já os que querem mudança sem a presidente estão em aproximadamente 40%.

“Esses são níveis pró e contra que já apareceram em outras eleições – uma parcela de 40% querendo mudança de governo é significativa, mas ainda não é suficiente para ganhar a eleição”, diz a fonte.

Mas, para ele, mais importante ainda é o fato de que a oposição à Dilma parece estar incorporando a agenda do mercado financeiro. “Isto não vai funcionar eleitoralmente – a população quer mais ou menos gasto público, juros mais baixos ou mais altos, gasolina mais barata ou mais cara, mais ou menos gasto em saúde, educação e transporte?”, indaga, provocativamente.

Segundo a fonte, o mercado financeiro e uma minoria de 5% a 10% que lê jornal favorecem um ajuste ortodoxo da política econômica, mas isto encontrará muito pouco eco junto à maioria do eleitorado. Em outras palavras, a oposição terá muita dificuldade em capitalizar a perda de prestígio popular de Dilma.

Uma outra questão é se um eventual governo de Aécio ou Eduardo Campos conseguiria empreender as mudanças almejadas pelo mercado financeiro. A proximidade de Armínio Fraga, nome de grande credibilidade, da candidatura Aécio reforça as apostas numa eventual mudança de rumos bem sucedida. Campos (mais especificamente, Marina) tem a seu lado André Lara Resende, um “pai” do plano Real de grande prestígio.

Mas a agenda do próximo governo é bem mais complicada do que pode parecer ao investidor estrangeiro que não esteja enfronhado diuturnamente na crônica político-econômica do País.

Por exemplo, uma das tarefas básicas seria um ajuste fiscal pelo lado da despesa, mas este é um desafio político dificílimo.

Entre 2003 e 2013, as despesas primárias da União tiveram um salto de 3,88 pontos percentuais do PIB. Porém, olhando-se essas contas mais detalhadamente, verifica-se que a alta de aposentadorias, transferências, gastos com educação e saúde e subsídios (boa parte para o Minha Casa Minha Vida) foi superior a quatro pontos porcentuais do PIB no mesmo período. Na verdade, o aumento total da despesa foi inferior a quatro pontos porcentuais porque houve recuo, como proporção do PIB, do custeio administrativo e da folha salarial do funcionalismo, incluindo despesas previdenciárias.

Em outras palavras, o ajuste da despesa significa cortar na carne gastos de caráter social. Será que Aécio ou Campos terão capital e estômago político para isto?

Cenários com Aécio

O cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da FGV-Rio, escreveu artigo recente sobre as perspectivas de um eventual governo de Aécio Neves.

No trabalho, publicado no Boletim Macro Ibre, Amorim Neto escreve que, para evitar “um mandato político débil”, Aécio teria que vencer com uma margem maior do que 5% no segundo turno, o PSDB precisaria aumentar a sua proporção de deputados dos atuais 8,6% para 15%, além de expandir também sua representação no Senado, de apenas 13,5%. Além disso, precisaria vencer as eleições estaduais em São Paulo e Minas Gerais, e o seu principal aliado, o DEM, teria que crescer no parlamento. Segundo o cientista político, esta última condição é uma “tarefa nada fácil, uma vez que, desde 2002, o partido (DEM) tem encolhido muito”.

Mesmo alcançadas essas difíceis condições, prossegue Amorim Neto, “os tucanos e seus aliados não emergiriam das urnas com uma maioria legislativa, requisito absolutamente imperativo para a efetividade presidencial no Brasil”. Seria necessário formar uma coalizão ampla, com o PMDB, PP, PPS e o PSB de Eduardo Campos e Marina Silva.

Se tudo isso for concretizado – um cenário, sem dúvida, extremamente otimista –, Amorim Neto vê Aécio partindo para um ajuste econômico profundo em 2015, como Lula em 2003. Porém, se aquelas condições extremamente favoráveis não se materializarem, o cientista político prevê que “o novo mandatário (Aécio) vacilará muito na hora de tomar algumas decisões duras, como, por exemplo, as relativas ao descongelamento dos preços administrados”.

“Ou seja, sob um cenário político menos otimista, um eventual governo Aécio poderá ter como marca a tergiversação e frequentes idas e vindas, em suma, a falta de clareza de propósitos e direção”, conclui Amorim Neto.

Ele ressalva que uma piora muito grande do cenário internacional poderia induzir um eventual governo Aécio a um ajuste mais duro mesmo sem grande suporte político, mas o mesmo poderia ser dito de um segundo mandato de Dilma – aliás, a influência ortodoxa do ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci ainda está viva como corrente na cúpula que de fato influencia os governo petista, embora seja bem sabido que a atual presidente tem um vínculo intelectual forte com a heterodoxia.

Amorim Neto ainda não fez uma análise de cenário semelhante com a vitória da dupla Campos-Marina, mas tudo indica que as dificuldades para montar uma base parlamentar a partir de um núcleo bem menor do que o dos tucanos seriam ainda maiores.

E um fator que não deve ser esquecido na equação político-econômica é a legendária eficiência do PT como oposição, reforçada pelo domínio de boa parte dos movimentos sociais e dos sindicatos mais relevantes.

Um ajuste vitorioso da política econômica pela oposição, em caso de vitória este ano, não é um cenário impossível, mas certamente é bem mais difícil do que se depreenderia da felicidade do mercado com as dificuldades eleitorais da presidente Dilma Rousseff.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada hoje, sexta-feira, 28/3/14, pela AE-News/Broadcast.

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