Mercado se ilude mais que cidadãos?

A popularidade de Bolsonaro desabou imensamente mais junto ao mercado do que em relação à população em geral. Como podem 'traders', investidores e gestores se deixarem iludir mais do que o cidadão comum?

Fernando Dantas

27 de maio de 2019 | 18h46

A maior parte das pessoas suporia que um participante do mercado financeiro é alguém menos ingênuo e predisposto a alimentar ilusões do que um cidadão mediano. Afinal, além de um nível educacional bem superior ao do brasileiro médio, ‘traders’, investidores e analistas do mercado teoricamente são pessoas treinadas para enxergar a realidade nua e crua por detrás das aparências. Da sua percepção sobre o que é ou não real derivaria a capacidade de fazer apostas certeiras em tendências que são menos visíveis para o cidadão comum, e com isso ganhar dinheiro com a  variação dos preços e a rentabilidade dos ativos.

É muito estranho constatar, portanto, que a decepção dos participantes do mercado financeiro com o governo de Jair Bolsonaro é muitíssimo maior do que o desapontamento da população em geral.

Aparentemente, os economistas bem treinados que conhecem sofisticados modelos econométricos e acompanham tintim por tintim o fluxo interminável de indicadores econômicos e financeiros; os operadores e gestores calejados que mantêm o sangue frio diante da possibilidade de ganhar ou perder milhões de reais ou dólares; os investidores multimilionários com portfólios complexos de ativos – todos estes grupos da elite econômica e educacional do País, com dinheiro para comprar a opinião profissional dos melhores analistas políticos, deixaram-se iludir bem mais que o cidadão médio sobre o que representava de fato a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República.

Vejamos os números. Segundo a série de pesquisas XP/Ipespe, em janeiro de 2019, 40% dos brasileiros consideravam o governo Bolsonaro como ótimo e bom, número que recuou para 34% em maio. Já os brasileiros que veem o governo como ruim ou péssimo saíram de 20% para 36% entre essas duas datas.

Entre os agentes do mercado financeiro, entretanto, essa piora na avaliação do governo Bolsonaro foi calamitosamente maior. Em janeiro, 86% consideravam o governo ótimo ou bom, proporção que caiu para 14% em maio. Já os agentes do mercado financeiro que acham o governo ruim ou péssimo subiram de 1% para 43% no mesmo período!

É certo que, para Bolsonaro, a mudança para pior na sua popularidade junto à população é bem mais preocupante do que a decepção do mercado. A razão é óbvia. São os eleitores que determinam diretamente a sorte dos políticos que decidem no Congresso Nacional se boa parte do programa de governo do Executivo será ou não implementada.

Mas o gigantesco desapontamento do mercado financeiro com o presidente também é um problema. Em primeiro lugar, mostra que a fé em Paulo Guedes – o ministro que contribuiu em grande parte para dar alguma aura de respeitabilidade ao bolsonarismo – já começa a fazer água ali onde ela é mais importante. Em segundo lugar, o mercado financeiro é um local onde também ecoa o sentimento dos investidores da economia real, e o tremendo balde de água frio radiografado pelas pesquisas XP/Ipespe talvez ajude a explicar por que a suposta retomada econômica ameaça transformar-se em recessão (ou até mesmo depressão, como vem sendo discutido a partir de recente artigo de Affonso Celso Pastore).

Um certo consolo é que os ativos brasileiros não parecem ter dado um mergulho tão intenso quanto a popularidade do presidente junto aos agentes do mercado. O que era de se esperar, já que muitos outros fatores influenciam as cotações, como o cenário externo, por exemplo. Mas também é possível que os agentes de mercado, ao expressarem suas opiniões, sejam dados a exageros típicos de quem vive permanentemente à beira de um ataque de nervos.

No final das contas, a queda da popularidade de Bolsonaro junto à população talvez seja um retrato mais fiel e apurado do desapontamento em relação ao presidente, em relação ao que seria razoável supor há cinco meses, do que a visão exaltada e ciclotímica dos agentes de mercado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/5/19, segunda-feira.

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