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Mercado volta a pressionar por ajuste

Fernando Dantas

13 de novembro de 2013 | 22h54

No início do segundo semestre deste ano, pareciam ter crescido as chances de que a economia brasileira fosse forçada a um ajuste drástico e doloroso antes mesmo das eleições presidenciais de 2014. A combinação de alta dos juros longos nos Estados Unidos (por causa da retomada americana), perspectiva de desaceleração abrupta na China e perda de capital político do governo, na esteira das manifestações de junho, apontava um cenário complicado.

Com o déficit em conta corrente por volta de 3,5% do PIB, o câmbio desvalorizou-se fortemente, e a impressão era de que o País estava embarcando num ajuste externo com os ingredientes típicos de redução do salário real, mais pressão inflacionária, desaceleração ainda maior do crescimento, alta dos juros – em resumo, tudo o que um governo não deseja no aquecimento para a campanha eleitoral.

O ambiente, porém, desanuviou-se a partir do final de agosto, com sinais de que a retomada americana fraquejava (o que segura os juros longos), a China estava realizando um pouso suave e a popularidade da presidente recuperara-se parcialmente.

Agora, em mais uma reviravolta, o dólar voltou a romper a barreira de R$ 2,30 e os juros futuros no Brasil estão num nível superior ao dos picos de tensão em junho e agosto.

Uma questão importante é a de saber até que ponto a nova onda de mau humor é provocada por circunstâncias externas. Com certeza, os dados surpreendentemente bons do mercado de trabalho norte-americano, divulgados na sexta-feira, contribuíram para a alta do dólar e dos juros no Brasil, puxados pela disparada da rentabilidade dos títulos de dez anos do Tesouro dos EUA.

Mas, independentemente do cenário externo, já havia sinais de que o espaço para a política econômica brasileira “tocar com a barriga” até as eleições é restrito. Existe uma nítida perda de tolerância com as experimentações heterodoxas no Brasil, que se direciona principalmente à preocupação cada vez mais acentuada com a política fiscal e a trajetória da dívida bruta.

É sintomático que, nos últimos meses, o ex-ministro Delfim Netto, uma raposa da confluência entre economia e política, tenha se retirado do bloco de apoio à política econômica de Dilma, criticando abertamente a política fiscal, a relação com o setor privado e até a política de controle da inflação.

Um dos fatores de pressão por um ajuste ortodoxo ao qual o governo é mais suscetível é a possibilidade de rebaixamentos do rating soberano do Brasil pelas principais agências de classificação de risco. ‘Downgrades’ significam riscos tanto políticos, ao arranharem a imagem de gestão econômica responsável que o PT exibe como trunfo eleitoral, quanto econômicos, pois poderiam ser a senha para um desembarque ainda mais veloz do risco Brasil.

Diante desse quadro, acirra-se o dilema do governo na sua estratégia econômico-eleitoral. O favoritismo de Dilma, como explicou neste espaço, na sexta-feira, o economista político Alexandre Marinis, é muito mais frágil do que parece à primeira vista. Dessa forma, o temor de tomar medidas impopulares deve estar mais forte do que nunca.

Ainda assim, é preciso agir para acalmar os mercados, porque uma crise mais séria entre e hoje e as eleições traria muito mais riscos à vitória de Dilma do que doses homeopáticas e cuidadosamente ministradas de “maldades”. É nesta ótica que devem ser entendidos passos como o desatamento das mãos do Banco Central para cuidar da política monetária, a perspectiva de reajuste dos preços de combustíveis e a decisão de jogar de volta para as contas de luz o subsídio que o governo resolvera bancar por conta própria. No corpo a corpo com o mercado, o governo sabe que tem entregar os anéis para não perder os dedos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

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