Metas rompidas, sistema mantido

Choques extremos de preços podem fazer IPCA ficar acima do teto de tolerância este ano e acima da meta no próximo. Ainda assim, analistas veem situação sob controle do BC, se Copom fizer a coisa certa.

Fernando Dantas

11 de maio de 2021 | 20h47

O IPCA de abril, de 0,31%, levemente acima da mediana do Projeções Broadcast, de 0,29%, não apresentou grandes surpresas. Para alguns analistas, está se desenhando um cenário de IPCA acima do teto de tolerância de 5,25% este ano, e acima da meta de 3,5% em 2022.

Ainda assim, a visão é de que não se trata de um total descontrole, mas sim da vicissitude de o Brasil pegar pela proa monumentais choques altistas de preços. Dada a magnitude desses eventos, perder o teto de tolerância num ano e a meta central no subsequente são fatos que não ofendem mortalmente o protocolo do sistema de metas.

Desde, claro, que a política monetária reconduza em tempo satisfatório o IPCA para a trajetória das metas anuais.

Resumidamente, a arrancada da atividade global – puxada pelas principais economias, Estados Unidos e China, em fase de superação da pandemia – leva as commodities para níveis extremamente altos.

A fragilidade fiscal e o caos político do Brasil – fatores que não são da responsabilidade do Banco Central – quebraram o mecanismo clássico de suavização do choque de commodities no País: a apreciação do câmbio, na esteira dos benefícios trazidos pela alta das matérias primas a uma economia que as exporta maciçamente.

Desta vez, porém, a combinação de alta generalizada do dólar ante outras moedas (arrefecida recentemente) com a insegurança político-fiscal do Brasil mantém o câmbio em níveis ainda muito depreciados.

A responsabilidade por um pedaço minoritário da desvalorização poderia ser debitada ao BC – o tema é polêmico – por ter levado a Selic para o nível muito baixo de 2%, o que teria estimulado apostas contra a moeda brasileira.

Mas esse possível pecadilho já está rapidamente sendo desfeito com as elevações recentes da Selic, que a levaram rapidamente a 3,5%, com promessa de continuar subindo.

De qualquer forma, o real fraco também encarece os produtos industriais, em combinação com pressões de demanda e oferta derivadas da pandemia. No primeiro caso, o desvio global de consumo de serviços para consumo de bens, por causa do distanciamento social. No segundo, problemas logísticos de cadeias industriais que ainda persistem.

No cenário energético doméstico, ainda há o clima seco contribuindo para pressionar tarifas de eletricidade.

Diante de tantas pressões altistas, quase todas derivadas da oferta – a demanda doméstica ainda está debilitada –, o papel do BC no sistema de metas é evitar a contaminação inflacionária dos setores não atingidos pelos choques e reconduzir a inflação para a meta em tempo hábil.

Varar o teto de tolerância – escreve-se uma carta de justificativa ao Ministério da Economia se isso acontecer – e ter o IPCA acima da meta no ano calendário serão vistos como acidentes (substanciais) de percurso se aquelas tarefas do BC mencionadas acima forem bem sucedidas.

Dessa forma, Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio, considera o cenário benigno, mesmo projetando IPCA de 5,8% em 2020 e de 3,7% em 2022.

O economista observa que as commodities continuam subindo, traduzindo-se em termos de IPCA por uma alta do índice derivada basicamente de alimentos e combustíveis.

Rocha presta atenção em particular ao núcleo inflacionário com exclusão de alimentos no domicílio e tarifas públicas, que vem caindo. Foi de 0,65% em fevereiro, 0,39% em março e 0,23% em abril.

O indicador veio com números bem fortes desde outubro de 2020, com exceção apenas de uma arrefecida em janeiro. Agora, porém, parece estar desacelerando de forma mais consistente.

Rocha nota que “os ‘tradables’ estão subindo menos e os ‘non tradables’ permanecem baixos”.

Os tradables são produtos comercializáveis internacionalmente, tipicamente bens industriais (além das commodities, claro). É sobre eles que as pressões do câmbio e do desequilíbrio entre oferta (menor) e demanda, incluindo as cadeias de insumos, operam com mais força.

Já os non tradables são basicamente serviços, que na sua grande maioria não se negociam internacionalmente. É aqui que o alto desemprego e a demanda interna ainda fragilizada atuam como freio à inflação.

E os serviços efetivamente permanecem bem comportados. Nos 12 meses até abril, os serviços no IPCA acumulam alta de 1,44% e, excluindo as voláteis passagens aéreas, de 1,77%.

Em termos de política monetária, Rocha projeta alta da Selic para 6% no final de 2021, mas vê até chance de que a elevação pare antes, em 5,5%.

Segundo outro gestor de recursos, “o IPCA de abril mostra a continuidade do repasse cambial para os preços, mas não é um número que deva mexer com a estratégia do BC”. Como Rocha, ele chama a atenção para uma desaceleração adicional dos núcleos inflacionários no indicador de abril.

Suas projeções também desenham uma trajetória de IPCA e Selic em que o maior sufoco se dá este ano, com um início de melhora em 2022. Assim, a inflação bate 5,4% em 2021 e 3,7% em 2022, e a Selic chega a 5,75% em dezembro deste ano.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/5/2021, terça-feira.