México competitivo, mas não produtivo

Economia mexicana recuperou competitividade e atrai manufaturas da China voltadas ao mercado americano, mas só por diferenças salariais e proximidade geográfica. Problema da produtividade permanece, como no Brasil.

Fernando Dantas

07 de janeiro de 2016 | 00h00

O México recuperou competitividade industrial em relação à China nos últimos anos, com manufaturas voltadas ao mercado americano transferindo-se do país asiático para o vizinho dos Estados Unidos. A explicação básica é o custo do trabalho, que cresceu mais de 5% ao ano na China, o dobro do ritmo mexicano, aliado à maior proximidade do México do mercado americano. Um estudo de 2014 aponta que o salário médio no setor manufatureiro na China já supera o mexicano.

Essas informações fazem parte de recente trabalho dos economistas Sean Dougherty, chefe do departamento do México no Departamento Econômico da OCDE, e Octavio Escobar, professor da Escola de Administração de Paris, que tentaram responder a pergunta “pode o México se tornar a nova China?”. A resposta, infelizmente, é “não ainda”, e o problema básico é a produtividade que, como no caso brasileiro, teve um desempenho ruim desde o início da década passada. Dougherty alerta que as visões do trabalho são pessoais, e não da OCDE.

Segundo dados apresentados pelos economistas, a produtividade total dos fatores (PTF) mexicana de 2000 a 2011 teve queda média anual superior a 1,5%, enquanto a chinesa cresceu quase 8% ao ano. Os dados da PTF não são controlados por capital humano, e, portanto, incluem os efeitos da educação. O desempenho do México, de acordo com os dados dos autores, foi ainda pior do que o do Brasil, onde a PTF naquele período teve crescimento médio em torno de 0,5%.

Dougherty e Escobar exploram a questão da produtividade mexicana no nível de empresas, e chegam a alguns interessantes diagnósticos. Uma primeira observação é a alta concentração de empresas muito pequenas no México, com até quatro trabalhadores. Já na China a maior concentração é de empresas com cerca de 100 trabalhadores, e a quantidade de empresas muito pequenas, de dez ou menos trabalhadores, é proporcionalmente mínima.

Na verdade, a curva da distribuição das empresas, em termos de número de trabalhadores, da China lembra a dos Estados Unidos, onde também há proporcionalmente pouquíssimas firmas com dez trabalhadores ou menos e uma concentração maior num patamar de médio a grande – na verdade, em torno de mil, bem superior ao da concentração máxima chinesa. Já a distribuição mexicana lembra a da Índia, com forte concentração de empresas mínimas.

Essa forte presença de empresas muito pequenas, por sua vez, explica-se tanto no caso mexicano quanto no indiano pelo grande número de firmas informais. Curiosamente, a informalidade na Índia cai a zero na a partir de um determinado tamanho de firma, em torno de algumas dezenas de trabalhadores, enquanto o México registra um número não desprezível de empresas informais com 1000 trabalhadores ou mesmo mais do que isso.

Os autores mostram que o ritmo de crescimento da PTF nas empresas manufatureiras na China e no México não é muito diferente, mas há uma dispersão de trajetórias muito maior na economia mexicana. Outros achados são que as empresas mexicanas nos Estados próximos dos Estados Unidos têm desempenho de produtividade melhor e que as empresas grandes do México estão razoavelmente bem em termos de evolução da PTF.

Mas talvez a parte mais interessante é aquela em que Dougherty e Escobar examinam fatores que influenciam a PTF das empresas, valendo-se do fato de que dispõem de dados em nível estadual, com variações dos tipos de política pública, do ambiente de negócios, do nível educacional, etc.

Eles concluem que fatores como a informalidade, especialmente em firmas dez trabalhadores ou menos, e a qualidade da educação (medida pelo exame internacional PISA) são fatores importantes – respectivamente negativo e positivo – na determinação da PTF das firmas. Outros fatores positivos significativos são o cumprimento das leis, a presença de multinacionais e intensidade de capital. A presença de meras montadoras (as chamadas maquilas, muito importantes numa fase anterior da industrialização mexicana) é um fator negativo para a PTF.

Uma constatação particularmente interessante é de que o estrago na PTF produzido pela informalidade é maior nos setores mais eficientes, e não se reduz ao efeito composição – isto é, a presença de empresas informais não baixa a PTF de um setor apenas porque as informais têm baixa produtividade, mas também porque prejudicam a PTF do setor como um todo, incluindo as empresas eficientes.

Outras pesquisas da dupla indicam que não existe uma “bala de prata” para combater a informalidade, já que esta tem múltiplas causas, sendo um sintoma de instituições deficientes e baixo nível educacional. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 5/1/15, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.