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Momento de inflexão para Bolsonaro?

Atitude do presidente diante dos riscos do coronavírus é tão irresponsável que já se discute se Bolsonaro perdeu as condições de governar o Brasil.

Fernando Dantas

17 de março de 2020 | 20h18

Terá sido um momento de inflexão para Jair Bolsonaro?

O comparecimento do presidente à manifestação do domingo, 15/3, enquanto boa parte do mundo toma medidas para evitar aglomerações e poupar vidas diante da pandemia do coronavírus, será visto no futuro como o começo do fim da carreira do capitão na primeira divisão da política brasileira?

Evidentemente, é uma futurologia que está muito além do saber e da capacidade profissional de qualquer analista.

Mas o simples fato de colocar a pergunta ajuda a dimensionar a enormidade do significado do comportamento do presidente até agora diante da crise do COVID-19.

A ida à manifestação não foi um fato isolado, mas coroou um crescendo de subestimação, pelo presidente, da grande ameaça representada pelo coronavírus.

Como observa Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, Jair Bolsonaro agora está nas mãos do grau de gravidade da disseminação da pandemia no Brasil.

Se o padrão for o de países europeus como Itália e Espanha, com mortes em profusão, quase colapso dos sistemas de saúde e medidas duríssimas de isolamento de pessoas, com reflexos devastadores na economia, os opositores de Bolsonaro vão garantir que a população brasileira jamais esqueça como o presidente minimizou o risco. E como isso ajudou a agravar a crise.

Um eventual surto mais brando no Brasil reduziria o desgaste de Bolsonaro.

De qualquer forma, a ida de Bolsonaro à manifestação, na visão de Ribeiro, “culminou um processo de deslegitimação de Bolsonaro como presidente do País”.

Para o analista, além de condenável em diversos aspectos, a atitude do presidente mostra um tamanho grau de irracionalidade que pode ter comprometido irreparavelmente a sua imagem junto à elite política e mesmo econômica do País.

A fala emocional da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) sobre o seu arrependimento de ter votado em Bolsonaro (chegou a ser cogitada para vice na chapa presidencial) e pedindo a sua saída é um sinal de que uma ruptura mais séria pode estar ocorrendo na base eleitoral que levou o presidente ao seu atual cargo.

Como analisa o cientista político Carlos Pereira (Ebape/FGV), vários personagens e setores conservadores que deram apoio a Bolsonaro na eleição (como Janaína), além de governadores e novas lideranças do Congresso, estão se afastando do presidente.

“O que vai restar é o núcleo duro retrógrado e autoritário, que comunga da visão pré-moderna do Bolsonaro”. Ele ressalva que esse núcleo “tem um tamanho considerável”.

Minoritário, mas grande e aguerrido, esse grupo pode colocar o País numa trilha de impasse.

Se a pandemia for intensa no Brasil e Bolsonaro de fato perder muita popularidade junto aos eleitores menos radicais que conquistou na eleição, pode ser criada uma situação, na visão de Ribeiro, da MCM, em que o presidente estará em conflito talvez irreconciliável com os principais atores institucionais, mas apoiado por sua fiel base popular.

Seria um equilíbrio tenso e paralisante. Bolsonaro, na verdade, seria ainda mais empurrado para o papel que já vem desempenhando, como ficou claro nas suas últimas entrevistas, de vítima de todos os Poderes e de todas as lideranças do establishment, e tendo como único trunfo o “povo”, lá na definição que esteja na cabeça do presidente.

Trata-se, porém, de um vitimismo extremamente agressivo, pelo qual Bolsonaro já aponta como “golpe” o isolamento institucional (com alguma ambiguidade, referindo-se também à quarentena em função da suspeita de que tenha contraído o coronavírus) que ele mesmo está provocando.

A guerra pelo orçamento, com partes absorvidas pelas emendas parlamentares, faz parte desse contexto em que o presidente se diz golpeado.

O impasse, segundo Ribeiro, vem do fato de que nem Bolsonaro tem capital político e militar (na avaliação do analista) para dar um golpe nem há ainda condições para um impeachment. Neste segundo caso, e aqui a opinião é do colunista, a base popular agressiva e parcialmente armada (as PMs) do atual presidente torna a operação muito mais complicada.

É difícil imaginar o que resultaria dessa queda de braços em termos de avanço da agenda econômica. No curto prazo, Ribeiro vê as reformas paralisadas diante da necessidade de tomar medidas para combater a crise.

Mesmo antes do surgimento do coronavírus como uma ameaça maior, a lentidão persistente da economia já estava levando lideranças do Congresso a repensarem a agenda de austeridade. Agora Ribeiro não vê clima para votar uma PEC emergencial, que permita corte de salários do funcionalismo, quando a conversa geral é sobre preservar rendas diante da crise.

Superada a crise, o analista acha difícil visualizar como o Congresso poderia dar sequência às reformas com um presidente cada vez mais populista e hostil às instituições, e por isto mesmo posto por estas em “quarentena política”.

Ele nota como o “Congresso mais reformista da história” tornou-se “populista” ao ampliar o BPC em plena crise, num desarranjo político criado pelo próprio Bolsonaro.

Sem aprendizado

Bastante coincidente com Ribeiro em termos de análise de conjuntura, Pereira, da Ebape, acrescenta o ponto de que Bolsonaro tornou-se prisioneiro da sua própria estratégia, lançada desde o primeiro dia de governo, de não intermediar os conflitos políticos através das instituições, preferindo se escorar no núcleo mais fiel dos seus eleitores.

O pecado original, nesse caso, teria sido a decisão de não operar dentro da normalidade do presidencialismo multipartidário, formando uma coalizão majoritária no Congresso para governar.

Bolsonaro preferiu a alternativa chamada pela ciência política de “going public”, isto é, do presidencialismo plebiscitário, em que o mandatário tenta enquadrar as instituições por meio da pressão das massas.

Contudo, para além de uma escolha errada, Pereira vê nessa rejeição à mediação institucional dos conflitos uma característica fundamental de Bolsonaro como político e, por isto mesmo, irremediável.

“Não tenho ilusão de que possa haver aprendizado, e tendência é ir piorando”, diz o cientista político.

Para ele, esperar uma “conversão” de Bolsonaro é pouco sábio, pois o presidente já teve várias oportunidades de ir para o centro e recusou todas.

Assim, “o que sobra é a política do confronto cotidiano, e de interpretar como adversárias todas as instituições que potencialmente possam colocar obstáculos a ele”, acrescenta.

Pereira está entre os que julgam que as instituições democráticas estão funcionando, e têm conseguido colocar limites a Bolsonaro.

Isso não significa, entretanto, mares plácidos à frente. Para o cientista político, as instituições continuarão a impor limites a Bolsonaro sempre que o presidente cometer excessos. Eventualmente, diante de excessos “grotescos”, as instituições “podem querer expelir o corpo estranho”, o que significaria tirar Bolsonaro da presidência antes do fim do mandato – neste caso, o impeachment é o caminho institucional.

De qualquer forma, seja ficando, seja saindo, Pereira não vê, na fotografia do momento, muito futuro político para o presidente. O brutal impacto do coronavírus pode comprometer mais duradouramente o que seria o seu principal trunfo em termos de popularidade, a recuperação da economia. Assim, a reeleição pode ter ficado bem mais difícil.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/3/2020, terça-feira.

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