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Mudança no financiamento externo?

Lívio Ribeiro, economista do Ibre/FGV, está menos otimista que o mercado e vê sinais que o preocupam no financiamento do Brasil.

Fernando Dantas

15 Julho 2016 | 18h53

O economista Lívio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), tem uma visão mais cautelosa do que a média dos analistas em relação às perspectivas da economia brasileira, mesmo considerando o aumento de governabilidade com o presidente em exercício, Michel Temer, e a nomeação de uma competente equipe econômica.

Na área fiscal, Ribeiro não embarca na relativa tranquilidade com que o mercado está dando o benefício da dúvida ao novo governo, apesar de metas de déficit primário em 2016 e 2017 que são muito maiores do que as que foram cogitadas – e intensamente criticadas – no auge das turbulências enfrentadas pelos ministros da Fazenda do segundo mandato da presidente afastada, Dilma Rousseff.

O economista do Ibre, na verdade, já vê alguns sinais – ainda leves, ele ressalva – de que nem tudo são flores no perfil de financiamento da economia brasileira. Nos últimos meses, ocorreu encurtamento dos prazos das captações públicas, o que, na sua opinião, refletiria a situação delicada das contas públicas e os desafios de colocação de novos papéis mesmo com taxas de juros elevadas. Ele ainda está quantificando e detalhando melhor estes efeitos.

Já no financiamento externo, o economista tem números que indicam uma mudança de perfil dos capitais que entram na economia brasileira – lembrando que o País está em um ambiente de elevadíssima liquidez internacional, com gigantesca quantidade de títulos de rendimento negativo.

Na categoria definida por Ribeiro como “portfólio bruto”, em que estão agrupados fluxos para bolsas e para títulos de renda fixa de médio e longo prazo (tipicamente do governo), houve uma forte virada negativa entre 2015 e 2016. Até maio de 2015, os fluxos acumulados em 12 meses estavam em R$ 43,3 bilhões, número que se transformou em uma saída de R$ 20,7 bilhões nos 12 meses acumulados até maio de 2016.

Já nos “desembolsos brutos” – tipicamente commercial papers, notas, bônus, empréstimos diretos, e empréstimos obtidos junto a compradores e organismos multilaterais –, o fluxo positivo de R$ 77,8 bilhões acumulado nos 12 meses até maio de 2015reduziu-se para US$ 57,7 bilhões até maio de 2016.

Por fim, a parcela de empréstimos intercompanhia do investimento estrangeiro direto líquido (descontando dos investimentos estrangeiros no Brasil os investimentos brasileiros no exterior) registrou comportamento similar, com entradas de US$ 30,1 bilhões registradas até maio de 2015 reduzindo-se para entradas de US$ 21,4 bilhões até maio de 2016.

Ribeiro acha possível que essas reversões (diminuições ou desacelerações) em fluxos mais “especulativos” reflitam uma maior desconfiança em relação ao comportamento de curto prazo da economia brasileira, numa preocupação mais de liquidez do que de solvência.

“É claro que não é possível afirmar com certeza, mas considero plausível um cenário em que os investidores começam a desconfiar da capacidade que a economia brasileira (seja governo ou empresas) teria de honrar compromissos anteriormente firmados e uma certa dificuldade de rolar suas dívidas a taxas razoáveis”.

No caso dos fluxos de participação de capital do investimento externo direto líquido (o que seria um investimento, em tese, mais estável e de longo prazo), o acumulado em 12 meses continua a crescer, mas a expansão desacelerou-se em maio (quando o número foi R$ 15 bilhões maior do que o do mesmo mês de 2015), na comparação com abril (R$ 22,2 bilhões maior na mesma métrica).

Ribeiro observa que, numa visão mais tradicional de qualidade de fluxos de capital, poderia ser considerado positivo o fato o investimento direto, em especial a parcela de participação de capital, ainda crescer, enquanto os fluxos de curto prazo recuam. Para ele, no entanto, dadas as condições de altíssima liquidez do mercado internacional, esse padrão traz alguma preocupação: “Num mundo de liquidez abundante, os fluxos como um todo estão desacelerando e há itens, como portfólio, que estão até caindo”, alerta o economista (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/7/16, quarta-feira.