Muitas qualidades e um grave defeito

Quais são os trunfos e o calcanhar-de-aquiles de Joaquim Barbosa na corrida presidencial?

Fernando Dantas

17 Abril 2018 | 16h37

Joaquim Barbosa despontou como a estrela da última pesquisa Datafolha, indo para quase 10% das intenções de voto sem ter mexido um dedo no sentido de fazer campanha ou mesmo aumentar sua exposição ao público brasileiro (como, por exemplo, Henrique Meirelles vem se empenhando em fazer, sem qualquer sinal de que o esforço esteja se transformando em intenções de votos).

Barbosa tem qualidades evidentes como candidato. Em primeiro lugar, ele simboliza e encarna a busca do eleitorado por um presidente que não apenas seja honesto, mas que também traga na alma a chama do combate à corrupção.

É interessante notar que o ex-ministro do Supremo já disse que votou no PT em várias eleições passadas, pois concordava com o viés social do partido. Dessa forma, a sua atuação no mensalão, quando agiu com grande severidade contra várias das principais lideranças petistas, o que lhe valeu o ódio de segmentos da esquerda, é particularmente republicana – não há na atuação de Barbosa qualquer conotação partidária, como justa ou injustamente alguns atribuem a Sérgio Moro, em relação ao PSDB.

Outro trunfo de Barbosa deriva da mesma inclinação política já mencionada acima. Ao contrário de tantos próceres do combate à corrupção no Brasil de hoje, ele não passa a imagem da indignação “udenista”, elitista, seletiva e de direita, contra representantes das classes populares.

E essa característica, naturalmente, é reforçada pelo fato de o ex-ministro do Supremo ser negro. Assim, tem-se de novo uma imagem emblemática poderosa – como a de Lula, com sua biografia da pobreza nordestina à presidência –, relativa a uma questão identitária fundamental na sociedade brasileira contemporânea.

E, diferentemente de Lula, Barbosa, mesmo nascido num ambiente extremamente modesto, fez uma trajetória educacional e acadêmica brilhante, sendo de fato um “role model” para a quase metade das crianças brasileiras que vivem em lares pobres.

Quanto à questão de que políticas públicas e programas defenderia, Barbosa ofereceu até agora à sociedade brasileira muito menos pistas do que seria adequado a um candidato a presidente.

De qualquer forma, como já mencionado acima, ele é claramente preocupado com questões de justiça social, o que em tese o coloca no campo socialdemocrata. Na questão da política econômica, o ex-ministro já deu sinais de que não seria adepto da agenda populista e radical que ainda é a tônica de boa parte da esquerda nacional (e para qual o PT, infelizmente, parece estar regredindo).

Particularmente encorajador é o fato de que Barbosa já sinalizou também que pode usar sua férrea firmeza no combate ao corporativismo que atinge o seu próprio ambiente profissional. Hoje, por exemplo, no Twitter, Pedro Fernando Nery, consultor legislativo do Senado, lembrou que, em 2004, Barbosa iniciou a divergência vencedora no STF que levaria à permissão de que os inativos contribuíssem, medida estabelecida pela reforma da Previdência de Lula.

Contra Barbosa há, evidentemente, todos os fatos que normalmente pesam contra os “outsiders”: nenhuma experiência política, falta de perspectivas de montar uma maioria parlamentar, etc. É verdade, mas se o eleitorado brasileiro decidir que é hora de escolher alguém de fora do sistema, esses problemas terão de ser enfrentados por quem quer que seja o outsider escolhido. Em princípio, não parecem impossíveis de ser superados.

A esta altura da coluna, o leitor deve estar achando que o colunista é um entusiasta da candidatura de Barbosa. Mas não é o caso. Na verdade, deixei para o final o que de fato pode ser um problema insuperável: a psicologia do ex-ministro do Supremo.

Mais do qualquer outros dos candidatos considerados explosivos, como Ciro Gomes e mesmo Jair Bolsonaro (e aqui se comenta apenas psicologia, não princípios morais), Barbosa parece ser efetivamente um temperamento que entra em conflitos como se fossem uma luta de vida ou morte entre o totalmente certo e o abominavelmente errado, e que recebe quase que qualquer crítica como um feroz ataque pessoal.

Durante seus anos de Supremo, foram inúmeras as vezes em que Barbosa demonstrou conviver muito mal com o contraditório e as críticas, e em que agiu de forma explosiva e furiosa diante de discussões e discordâncias. Num ambiente como uma corte de Justiça, em que, ao fim e ao cabo, a solução virá da soma dos votos dos participantes, seja lá com que diferentes graus de exaltação cada um defenda a sua visão, um temperamento como o de Barbosa não chega a ser um grande problema – e é por isso, inclusive, que ele foi um bom ministro do Supremo. O sistema, por seu desenho, é imune a autoritarismo.

Totalmente diferente é a chefia do Executivo de uma nação. Neste caso, o risco que uma personalidade como a de Barbosa, para além das óbvias dificuldades que traria nas intrincadas e difíceis negociações com o Legislativo e com todos os grupos de interesse da sociedade, descambe para o autoritarismo ou a impotência (no caso de não conseguir impor sua vontade), é bastante alto. Esta é uma dúvida séria sobre a qual Barbosa faria bem em dar algum tipo de resposta ou garantia à sociedade brasileira se realmente decidir se candidatar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/4/18, segunda-feira.