Muito mais que uma guerra comercial

Livio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, contextualiza atual conflito EUA-China: é parte de uma disputa pela posição de potência hegemônica na segunda metade do século XXI.

Fernando Dantas

14 de maio de 2019 | 11h55

As reações fortes do mercado aos últimos eventos da guerra comercial entre Estados Unidos e China revelam uma perda de perspectiva sobre o que efetivamente representa o conflito: uma disputa geopolítica entre duas potências para ver qual delas será hegemônica na segunda metade do século XXI.

A visão é do economista Livio Ribeiro, especialista em China do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV).

“As pessoas esquecem que a discussão de guerra comercial vai muito além de guerra comercial”, diz Ribeiro, acrescentando que “nesse sentido, a solução não é rápida e óbvia, e o armistício que estávamos vendo não era um equilíbrio”.

Em resumo, a ideia do pesquisador não é de que o mercado esteja superestimando os efeitos negativos potenciais do conflito sobre a economia mundial. O que Ribeiro aponta é que analistas e traders ficaram otimistas demais com o que se percebia como um bom encaminhamento da disputa, e agora estão reagindo quase como se uma ruptura irremediável tivesse ocorrido.

O que ele chama de “armistício” é os Estados Unidos terem adiado a alta de 15% de tarifas sobre US$ 200 bilhões em produtos de uma prometida elevação de 25% (só realizaram 10% num primeiro momento), criando um tempo para mais negociações. O prazo foi estendido mais de uma vez, mas há três dias os americanos decidiram fazer valer os 15%, além de acenar com a extensão dos 25% para mais US$ 300 bilhões em importações chinesas. Em resposta, a China anunciou a alta de tarifas em US$ 60 bilhões de importações dos Estados Unidos.

Para Ribeiro, esse roteiro já era meio “pedra cantada”. Ele ressalta, inclusive, que a reunião nos Estados Unidos da qual participou a missão chinesa, depois de anunciada a elevação dos 15% adicionais, foi descrita como positiva por ambos os lados.

O economista considera que a dinâmica de fundo do conflito mantém-se igual à de seis meses atrás (ou um pouco mais do que isso), porque os Estados Unidos estão pedindo algo que a China não vai entregar: na visão de Livio, os americanos querem que, na prática, a China abra mão do seu planejamento estratégico “Made in China 2025”, pelo qual o país quer subir na cadeia de valor e se tornar liderança global em setores de ponta de telecomunicações e informática, em tecnologias verdes, nanotecnologia, eletrônicos de alto valor agregado, 5G, painéis solares, entre outros.

Na prática, segundo Ribeiro, os Estados Unidos não querem que a China estimule e dê subsídios a esses setores, o que implicaria renunciar à visão estratégica do Made in China 2025.

“Não vai acontecer”, prevê o pesquisador.

Ainda há no contencioso temas de propriedade intelectual – que o economista vê como mais passíveis de solução, porque a China hoje moveu-se para a fronteira em termos de registros de patentes e P&D, e é menos dependente do modelo de engenharia reversa – e ataques cibernéticos.

O analista observa que “Trump está superneurótico no Twitter, como ele sempre faz, mas é uma negociação difícil de fato – ninguém deveria estar arrancando os cabelos por causa disso”.

Na visão de Ribeiro, “quando houve o armistício as pessoas acharam que tinham tirado um bode da sala, mas não, ele continuou lá, no mesmo lugar, as pessoas é que decidiram olhar para outro lado”.

O pesquisador vê, em relação ao conflito com a China, uma corrente mais pragmática e outra mais beligerante e ideológica entre os principais auxiliares de Trump. O problema é que Robert Lightrizer, atual negociador oficial de política comercial dos Estados Unidos, é um expoente particularmente duro da corrente ideológica.

“Quando alguém como ele foi colocado como negociador-chefe já era sinal de que a ideia era que a coisa explodisse”, diz Ribeiro.

Ainda assim, na sua visão, as conversas vão continuar, e o ponto chave agora é avaliar como os acontecimentos recentes vão influenciar a linha de negociação das duas partes.

Em termos de impacto econômico, Ribeiro vê efeitos mais modestos no curto prazo, mas acrescenta que “no longo prazo é claro que o impacto é negativo, pois significa aumento de custos de produção”.

De qualquer forma, a sua conclusão é de que “isto é muito maior que uma guerra comercial e achar que vai ser resolvido rapidamente é ingênuo – tem havido muito oscilação de opinião no curto prazo sem que se perceba a dinâmica como um todo”.

Fernando é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/5/19, segunda-feira.

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