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Multis americanas, Trump e globalização

Para José Tavares, diretor do Cindes, think tank de política comercial, grandes empresas americanas podem frear ímpetos antiglobalização de Trump.

Fernando Dantas

23 Novembro 2016 | 11h23

Quem está preocupado com a ameaça do protecionismo pairando sobre o comércio global certamente não ficou mais calmo com o anúncio do presidente eleito norte-americano, Donald Trump, de que vai abandonar a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) no seu primeiro dia de governo. A TPP é um acordo comercial, já negociado, mas ainda não ratificado pelos países membros – um total de 12 nações das Américas e da Ásia, banhadas pelo oceano Pacífico, com exclusão da China.

O acordo é percebido como uma iniciativa que dá aos Estados Unidos uma ferramenta para contrabalançar o poder econômico e político da China na Ásia. Ainda assim, a TPP foi duramente atacada por Trump durante a campanha eleitoral, dentro da sua linha de pensamento de que acordos deste tipo favorecem a transferência de empregos industriais dos Estados Unidos para outros países.

Como Trump comporta-se como um bufão que não dá muita importância a ser flagrado em explícita contradição entre o que diz e os fatos, uma dúvida que surge com a sua eleição é se este estilo “pós-verdade” vale também para a palavra empenhada. Isto é, se as promessas de campanha serão cumpridas. No caso de compromissos vistos pelo establishment e por muitos especialistas como desastrosos, a torcida é para que Trump coloque o bom senso à frente da coerência, e volte atrás. Neste sentido, a declaração sobre a TPP passa a impressão de que o discurso de campanha é mais para valer do que acham os otimistas.

Ainda assim, José Tavares, diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), think tank de comércio internacional no Rio, considera precipitado pensar que o presidente eleito dos Estados Unidos vai instaurar uma Idade das Trevas em termos de política comercial.

Tavares nota que o empresário Trump tem negócios em cerca de 20 países. “Ele é alguém que tem atuação global, e dificilmente vai dar o tiro no pé de contrariar o interesse das empresas americanas”, observa o economista.

O cenário mais provável, para o diretor do Cindes, é aquele em que Trump tenta “salvar a face”, isto é, manter as aparências em relação às “bravatas” da campanha, mas sem ferir fundamentalmente a lógica do interesse dos próprios Estados Unidos na globalização.

Tavares lembra que os Estados Unidos lideram o capitalismo global nas áreas mais avançadas, seja em indústrias de alto teor tecnológico, seja nos serviços mais sofisticados. “Esses setores são a cara da globalização, e simplesmente não funcionam sem ela”, diz o especialista.

O diretor do Cindes considera “impensável” que Trump, como empresário globalizado, entre em rota de choque com as principais multinacionais norte-americanas. Tavares nota que, desde o governo Reagan, tomando como medida o número de processos antidumping iniciados pelos Estados Unidos, houve oscilações entre momentos mais e menos protecionistas na política comercial do país, sem uma correspondência clara com o revezamento entre Republicanos e Democratas no poder. Ele acrescenta que a literatura econômica sugere que a política comercial tende a se mover junto com os interesses dominantes em cada país.

Um episódio ilustrativo, menciona Tavares, foi a invenção da TV de tela plana LCD pela Sharp no final dos anos 80. Por um conjunto de razões, entre os quais as economias de escala, essa produção concentrou-se no Leste asiático, trazendo fortes preocupações a setores de Defesa nos Estados Unidos, que teriam que trocar as telas ultrapassadas de todos os seus equipamentos. Estes segmentos pressionaram o governo americano, que lançou iniciativas para produzir competitivamente telas de LCD nos Estados Unidos.

Segundo o economista, foram as próprias grandes empresas americanas de informática e tecnologia da informação, como Apple, IBM e Dell, que convenceram o governo de que aquelas iniciativas eram inúteis e desnecessárias, já que muito da produção asiática acontecia no contexto de joint-ventures com empresas dos Estados Unidos. Em meados da década de 90, o governo americano desistiu de criar uma produção nacional de telas de LCD.

Dessa forma, Tavares considera que o mundo corporativo americano fará Trump se movimentar com um mínimo de pragmatismo. Isto não quer dizer, porém, para o especialista, que o sistema internacional de comércio não sofrerá fortes estresses.

“Ele fez tanta bravata, que agora temos que esperar para ver o que vai fazer; o governo dele certamente não manterá a postura dos Estados Unidos como o grande promotor do livre comércio, como um país que busca fortalecer a OMC e levar adiante a fronteira dos acordos comerciais”, ressalva o especialista. Outro problema é que Trump deve trazer às negociações comerciais o seu “estilo de fazer negócios’, no qual regras claras e transparentes são a última das preocupações.

Só que Tavares distingue a interrupção nos avanços e um aumento das “confusões” na área comercial, por um lado, de um cenário que signifique efetivamente um retrocesso da globalização, o que considera menos provável, por outro.

No caso da TPP, ele nota que abandoná-la é um passo arriscado para Trump, já que abre espaço para atuação da China, mas ainda assim trata-se de algo que ainda não foi implantado. Ele não crê que Trump dissolva o Nafta, que também nasceu em parte de interesses empresariais americanos, mas acha que o presidente eleito vai buscar algumas mudanças menos profundas para satisfazer os eleitores que acreditaram em suas promessas.

Na interface entre as questões comerciais e ambientais, nota Tavares, muitas empresas norte-americanas já se adaptaram e até adquiriram interesses no Acordo de Paris, o que também pode ser um freio para a ameaça dos Estados Unidos simplesmente sair batendo a porta.

“Não acho que vai ser o caos, porque é difícil imaginar um país da dimensão dos Estados Unidos fazer uma política suicida, contrária aos seus próprios interesses”, resume Tavares. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/11/16, terça-feira.