Mundo ajuda, Brasil se atrapalha

Baixos juros internacionais e alta das commodities são fatores positivos para a retomada do Brasil, cuja economia saiu-se relativamente em comparação com a OCDE e com outros países latino-americanos. Mas o Brasil, como sempre, ameaça fazer trapalhadas fiscais, o que já se reflete no câmbio e nos juros e pode ameaçar recuperação.

Fernando Dantas

03 de setembro de 2020 | 12h37

Se comparado com o pânico inicial em março, e o pessimismo de maio (auge do negacionismo presidencial em relação à pandemia), a situação econômica do Brasil hoje é inegavelmente melhor.

O PIB do segundo trimestre, divulgado ontem, de fato veio pior do que as expectativas mais recentes. Porém, na grande angular das comparações internacionais e, mais especificamente, no contexto latino-americano, o Brasil não se saiu mal.

Na comparação com o mesmo período de 2019, o PIB brasileiro caiu 11,4% no segundo trimestre, quase o mesmo recuo da Alemanha (-11,7%) e próximo da média da OCDE, de -10,9%.

Na América Latina, a contração do PIB no segundo trimestre foi de 18,7% no México, 30% no Peru, 15,7% na Colômbia e 14,1% no Chile.

Outros dados mostram uma impressionante diferença de reação à crise econômica da Covid do Brasil, na comparação com seus pares. A confiança da indústria brasileira (Markit PMI), por exemplo, saiu do fundo do poço de 36 em abril para 58 em julho (acima de 50 sinaliza expansão). No mesmo período, o México foi de 35 para 40.

O desapontamento do PIB do segundo trimestre veio junto, como abordado neste espaço na coluna de ontem, com o anúncio de mais quatro parcelas do auxílio emergencial, que serão um estímulo à economia.

Bradesco e Itaú preveem queda do PIB de 4,5% este ano e alta de 3,5% em 2021. Evidentemente não é para comemorar, mas é uma projeção bem “menos pior” do que a maioria imaginava em abril e maio.

Em parte, esse desempenho melhor do que se esperava do Brasil é um história externa. Apesar das idas e vindas das expectativas (nos Estados Unidos, por exemplo, agora voltou a preocupação com a atividade), as principais economias do mundo também estão se recuperando razoavelmente bem da pandemia.

Por enquanto vai pintando mais uma recuperação em “V” do que em “W” ou no formato do “símbolo da Nike” (bem mais lenta que a queda).

Para o Brasil, mais uma vez, os astros internacionais têm se alinhado de forma bastante favorável. Por causa das dúvidas quanto à retomada americana, os juros dos EUA estão muito baixos e o dólar recuou mais de 10% ante o a cesta de moedas do “dollar index” (DXI), de março a agosto.

Por outro lado, a tendência das commodities é de alta, o que beneficia o Brasil, grande exportador de matérias primas. Para ficar num exemplo, muito importante para a pauta brasileira, o preço do minério de ferro subiu quase 50% desde maio.

Mas o Brasil, como de hábito, vem minando a sua própria situação favorável (em termos comparativos).

O País, entre as nações emergentes importantes, foi a que mais torrou dinheiro público em políticas para se contrapor ao estrago econômico da Covid-19.

Até aí, tudo bem. É bem possível que a retomada brasileira melhor do que a de outros emergentes e latino-americanos esteja ligada a essa imensa injeção de recursos na economia pelo governo.

Talvez mais pudesse ter sido direcionado a pequenos e micro negócios arrasados pelo isolamento social, e que empregam muito,  e menos para gente que não precisava, como o auxílio emergencial que fluiu para jovens “nem-nem” (nem estudam nem trabalham) de classe média alta.

Mas o que passou passou. O fato é que o conjunto de gastos fiscais e mais a competente atuação do BC na liquidez e nos canais de crédito colocaram o Brasil numa posição privilegiada, comparada à dos seus pares, neste período pós auge da pandemia.

Os riscos ainda são enormes. O que vai acontecer quando a fonte do auxílio emergencial parar de jorrar, assim como a do programa de redução ou suspensão da folha de trabalho, com manutenção do emprego e de parte do salário?

É atemorizante, mas ainda assim é melhor enfrentar esse desafio na situação do Brasil do que ver o PIB despencar 30% num trimestre, com a pandemia descontrolada, como o Peru.

O Brasil tem um plano de voo óbvio pela frente. É preciso fazer um “desmame” gradual, porém decidido, dos anabolizantes fiscais da pandemia. Esse processo deve atender simultaneamente a dois objetivos.

O primeiro é dar algum tempo para o setor privado e o mercado de trabalho se recomporem minimamente de forma a poder sustentar a demanda no ano que vem.

O segundo é sinalizar de forma cabal aos investidores que a explosão de gasto de 2020 foi um evento único e isolado e que a gestão da contas públicas voltará, em 2021, ao padrão de saneamento gradual que prevaleceu de 2015 a 2019.

O problema é que o País, como de hábito, não dá mostras de que vá seguir o plano de voo óbvio. Há uma tremenda insegurança, cujo fulcro é a discussão do teto de gastos, sobre como Bolsonaro vai conduzir a política de gastos sociais e investimento público, agora que seus adoradores não são mais apenas os nostálgicos da ditadura, mas também os pobres e parcela dos nordestinos.

Entre março e meados de agosto, a taxa de câmbio do real sofreu uma desvalorização mais de 20% superior à da média dos países emergentes. O risco Brasil (medido pelo CDS de cinco anos), que estava abaixo da média dos emergentes em fevereiro, situava-se acima dessa média em meados de agosto.

Esses são sinais claros de que parte dos problemas do Brasil no momento são “coisa nossa”, não podendo ser atribuída à montanha russa dos fatores externos. Que o nosso destino ainda esteja nas nossas mãos poderia ser um consolo, se o Brasil não tivesse se especializado em não perder uma oportunidade de perder uma oportunidade.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/9/2020, quarta-feira.

Tendências: