Mundo comanda a festa no mercado brasileiro

Analistas alertam que, apesar de avanços na Previdência serem a "cereja do bolo" na atual alta da bolsa e queda do dólar e dos juros, são os ventos do mercado externo que estão determinando o bom momento – não só para o Brasil, mas também para outros emergentes.

Fernando Dantas

04 de julho de 2019 | 20h42

Enquanto a reforma da Previdência avança de uma forma até surpreendente para muitos analistas, o mercado de ativos brasileiros está em festa: dólar e juros futuros caem (intensamente, no caso destes últimos) e a bolsa sobe.

A tendência é ligar uma coisa à outra, Previdência e mercados, e obviamente a primeira ajuda os últimos. Mas alguns analistas chamam a atenção para o fato de que o atual movimento dos ativos brasileiros está sendo bem mais puxado por fatores externos do que internos.

“O mercado doméstico tem acompanhado o externo, e a Previdência é mais a cereja no bolo”, diz Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da JGP, gestora no Rio.

Assim, depois de um mês de maio em que certo recrudescimento da guerra comercial deixou os mercados mais ressabiados em relação aos ativos de risco, junho veio com a reação dos principais BCs globais – Fed sinalizando corte de juro e BCE mais afrouxamento quantitativo e zerar a taxa básica (que está quase lá). Depois, mais para o final do mês, a reunião do G20 teve um tom menos beligerante nas conversas sobre comércio global.

Rocha vê uma conjuntura externa binária em que dois diferentes cenários podem se consolidar.

A primeira possibilidade, que parece ser a que vem embalando os mercados, é uma aposta em alguma acomodação na guerra comercial e a visão de que a atual perda de ritmo da economia global é um “miniciclo” que não desembocará numa recessão, mas sim num ritmo ainda aceitável de crescimento – e isto acontecerá inclusive pela reação dos principais BCs globais.

Já o cenário alternativo seria aquele em que a guerra comercial se agrava e o mundo de fato vai para uma recessão, ou uma desaceleração muito contundente.

Para os ativos de risco – que incluem desde as bolsas globais, inclusive as dos países ricos, até ações, títulos e moedas de emergentes –, o primeiro cenário é bastante bom, e o segundo é indiscutivelmente negativo. A razão pela qual a segunda alternativa é ruim para os emergentes é que ela pode provocar uma “fuga para a qualidade”, pela qual o dinheiro sai dos ativos de risco em direção a títulos do Tesouro dos Estados Unidos, Suíça, ao iene japonês etc.

Na verdade, o dinheiro também vem fluindo para os papéis do Tesouro americano, levando ao forte recuo na rentabilidade do título referencial de dez anos. Mas há alguma ambiguidade aí. Até certo ponto, o movimento aumenta a liquidez global, o que é bom para os emergentes, especialmente se a perspectiva de reação dos BCs aponta um cenário adiante em que não haverá recessão.

Mas uma queda adicional muito forte seria um sinal de recessão e, se ocorrer, já pode ser em função da “fuga para a qualidade”.

Livio Ribeiro, economista do Ibre/FGV, vem trabalhando com um modelo que busca segregar os fatores internos e externos que afetam o câmbio e o prêmio de risco do Brasil. Ele tem uma visão parecida com a de Rocha (que, aliás, está mais propenso a apostar no cenário de “miniciclo” do que no de recessão global) no que toca ao bom desempenho recente do mercado brasileiro.

Ribeiro tem o modelo atualizado até 24 de junho, e este aponta que a valorização dos ativos nacionais no mês passado “veio mais do mundo do que de fatores domésticos, que até jogaram contra”. Nos próximos dias, Ribeiro deve atualizar o modelo até o momento presente.

O economista do Ibre nota em particular que até a queda da inflação implícita no Brasil (a que é estimada comparando-se títulos pré e pós-fixados) não é um fenômeno nacional, mas acompanha movimentos semelhantes no mundo, como nos Estados Unidos e na Europa.

Livio aponta o risco de que a queda de juros global, que no momento impulsiona os emergentes, possa “passar do ponto”, chegando ao nível em que a taxa de desconto e, portanto, o fluxo de rentabilidade futura caem demasiadamente.

Se isso ocorrer, ele alerta, o cenário dos mercados no Brasil pode piorar mesmo que a agenda doméstica de reforma da Previdência e outras medidas de política econômica continue a avançar num bom ritmo.

Mas certamente seria pior ainda para o Brasil se o mundo se tornasse mais hostil aos emergentes e a agenda de reformas fosse interrompida, diluída ou postergada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/7/19, quinta-feira.