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Mundo, e não Bolsonaro, move mercados

Corrente de analistas vê influência preponderante do cenário internacional na piora recente dos mercados no Brasil, com queda da Bolsa, alta forte do dólar e (alguma) elevação da curva de juros.

Fernando Dantas

28 de agosto de 2019 | 11h13

Bolsonaro brigando com Macron, isolando-se no cenário internacional e recusando ajuda da UE para combater incêndio na Amazonas. Popularidade presidencial no declive e rumores de mais escândalos chegando perto de figuras do governo. E até mesmo a chamuscada de Rodrigo Maia, o paladino das reformas, na Lava-Jato.

Tudo isso está pesando sobre os mercados brasileiros e impedindo o justo rally pelo bom encaminhamento da reforma da Previdência e outras medidas da agenda econômica, certo?

Errado, na visão de uma corrente de analistas, que vê o cenário internacional como fortemente preponderante no mau humor e na volatilidade que atingiram os ativos domésticos na últimas semanas.

Em relação às trepidações provocadas por Bolsonaro, Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, observa que “não há nada de concreto que fizesse os mercados azedarem, a piora aqui está em linha com a maior aversão a risco global – não estamos destoando”.

Tomando-se o CDS de cinco anos de Brasil, México, África do Sul e Turquia desde o início de agosto até hoje de manhã, houve variações de, respectivamente, 11,3%, 0,35%, 16,7% e 8,6%. A Turquia está num nível bem mais alto, em torno de 420 pontos base, e outros três países estão entre 100 e 200: Brasil com 141,6, México com 117,5 e África do Sul com 189,1.

A elevação do CDS brasileiro de cinco anos nesse curto prazo não destoa tanto do grupo, a não ser pelo México. Não parece haver uma discrepância clara e intensa do Brasil motivada por fatores internos.

Kawall nota que a desvalorização do real, de cerca de 10% em pouco mais de um mês, foi de fato mais intensa do que a de vários dos países comparáveis no período mais recente. Mas o economista pondera que isso pode se dever em parte ao fato de que as taxas de juros no Brasil estão muito baixas, e ainda há expectativa de queda, com a continuação do novo ciclo de redução da Selic.

Notando que o câmbio e a Bolsa foram bem mais atingidos que a curva de juros na maré ruim recente (esta coluna foi apurada e redigida antes de elevação um pouco mais significativa da curva de juros ontem, mas ainda para níveis historicamente baixos), ele vê inclusive um fato positivo:

“Conquistamos o espaço para reduzir os juros num momento de desaceleração global”.

Não há muito mistério nas causas externas de pressão sobre os ativos de economias emergentes, em especial aquelas que ainda tem fragilidades macroeconômicas sérias (como é o caso do Brasil na área fiscal).

Há o risco de recessão global, a tensão crescente da guerra comercial entre Estados Unidos e China e agora, recentemente, sinais de que o Federal Reserve (Fed, BC americano) pode não estar disposto a percorrer todo o caminho de mais estímulos previsto e desejado pelos mercados.

Livio Ribeiro, economista do Ibre/FGV, nota que, há um mês aproximadamente, houve uma clara quebra na relação entre a rentabilidade do título do Tesouro americano de dez anos e a dos papéis corporativos dos países emergentes.

Ambos vinham caindo gradativamente juntos e, a partir do momento mencionado, abriu-se uma “boca de jacaré”: a rentabilidade dos treasuries passou a cair num ritmo bem mais forte, e dos títulos de emergentes empinou para cima.

Dentro desse movimento, o Brasil não parece ter se destacado particularmente dos demais emergentes.

O padrão de agosto parece muito o de “fuga para a qualidade”, quando diante de maior aversão a risco global, os investidores correm para ativos e moedas de máxima segurança, de países com Estados Unidos, Suíça e Japão, e os mercados emergentes, com destaque para os frágeis, sofrem mais.

Não que se descarte completamente qualquer “efeito Bolsonaro” nos mercados brasileiros (nunca ajuda o presidente se meter continuamente em trapalhadas), mas tanto Kawall como Ribeiro veem a dinâmica atual sendo claramente ditada por forças externas.

Kawall ressalva também que considera que a questão ambiental é muito importante para o agronegócio, o comércio exterior e a economia brasileira, e que é fundamental que o Brasil passe a mensagem correta de que o sucesso competitivo do País como produtor de commodities agrícolas não está ligado a descaso com o meio ambiente. Mas não é essa questão que está movendo os mercados neste momento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/8/19, terça-feira.

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