Mundo favorável, mas é bom se cuidar

Riscos do cenário externo não parecem muito assustadores para o Brasil no momento, mas economia americana, em particular, vive momento complexo e difícil de interpretar. É bom colocar as barbas de molho e correr com o ajuste fiscal.

Fernando Dantas

16 Janeiro 2019 | 20h55

A alta dos ativos brasileiros foi freada em dezembro pelo desempenho muito ruim das bolsas americanas e sinais de problemas de crédito para algumas empresas nos Estados Unidos, e retomou um ritmo forte quando, em janeiro, a situação na maior economia do mundo se estabilizou.

O mercado nacional agora aguarda fatos decisivos que devem esperar fevereiro para se definir: as eleições da presidência da Câmara e do Senado, a apresentação de qual será a reforma da Previdência de Jair Bolsonaro e as primeiras indicações concretas da sua recepção pelos parlamentares – isto é, suas chances de efetivamente ser aprovada.

Se essa frente doméstica se desdobrar como esperam os otimistas, a projeção mais comum é de que os ativos brasileiros continuem melhorando nos próximos meses, o que configuraria de fato um período de vacas gordas para o mercado.

Mas será que o mercado externo pode vir a estragar a festa do mercado nacional? Diversos analistas apontam que a economia central dos Estados Unidos passa por um momento complexo e de difícil interpretação.

Como nota Fernando Rocha, a curva de juros americanos está muito achatada, com os juros de dois anos colados nos Fed Funds (taxa básica, de curtíssimo prazo) e muito pouca distância entre os juros de dois e dez anos – no momento em que esta coluna estava sendo escrita, de respectivamente 2,56% e 2,74%. Uma curva negativamente inclinada seria sinal de recessão, e não se está muito longe disso (do sinal, não da recessão).

O problema é que a economia real americana não emite sinais recessivos, muito pelo contrário.

“Não vejo de onde pode estar vindo, a taxa de desemprego está abaixo de 4%, o crescimento é robusto, há bons resultados das empresas”, comenta Rocha.

É verdade que os Estados Unidos podem desacelerar em 2019 – ainda há impulso fiscal das políticas de Trump, mas em 2018 estes foram mais forte, assim como a política monetária no ano passado esteve em terreno ainda mais expansionista do que se prevê para o atual. O que se antevê, portanto, é um ajuste de ritmo na margem, e não uma freada brusca ou uma recessão.

Havia a preocupação com o Fed, BC americano, que até o final do ano passado ainda tinha um discurso mais duro contra o risco inflacionário (que ainda não despontou no horizonte) do que o mercado gostaria. Mas, depois do dezembro negro nos mercados, o Fed suavizou seu discurso neste início de ano e já deixou entrever que não deve subir os Fed Funds em março. Não parece vir primordialmente da visão de um Fed superconservador, combatendo uma inflação inexistente, o temor expresso na curva de juros.

Uma hipótese, para Rocha, é que, após dez anos de alta do mercado acionário americano (o S&P 500 mais que triplicou entre 2009 e 2018) e de um longo período de juros de praticamente zero nos Estados Unidos (onde já voltaram a subir) e na Europa e na zona do euro e Japão (onde permanecem lá), haja o temor de bolhas de ativos ocultas que venham a estourar, provocando problemas sérios de crédito e levando à recessão. Há indícios desse tipo nos mercados de crédito de empresas de maior risco, na valorização dos gigantes da tecnologia, internet e informática e na abertura de capital de start-ups do mesmo setor. Mas nada parece tão alarmante quanto, por exemplo, o problema das hipotecas que levou à crise de 2008 e 2009.

De qualquer forma, como diz outro gestor no Rio, “um grande evento de crédito nos Estados Unidos pode piorar a percepção de risco global e afetar negativamente países emergentes como o Brasil”.

Uma segunda fonte de risco, como nota Alexandre Pavan Póvoa, sócio fundador da Canepa Investimentos, é a China, onde o governo tenta lidar ao mesmo tempo com a contenção de eventuais problemas de crédito e com a desaceleração da economia. É uma gestão econômica complexa, porque, no primeiro caso, trata-se de restringir, e no segundo de acelerar. Um pouso brusco e forçado da economia chinesa afetaria o Brasil pela via comercial.

Na Europa, o crescimento vem decepcionando e a confusão em torno do Brexit não ajuda. Porém, a economia em marcha lenta no Velho Continente é algo a que a economia global já se habituou e não deve causar maiores sustos.

De forma geral, portanto, o cenário externo não parece dos mais ameaçadores para este início do governo Bolsonaro, com uma probabilidade razoável de que a desaceleração global, com destaque para Estados Unidos e China, seja ordeira, ainda que sujeita a um ou outro solavanco.

Entretanto, com notam vários analistas, o comportamento dos principais indicadores de mercado, especialmente nos Estados Unidos, é intrigante e difícil de interpretar. Assim, surpresas negativas não podem ser descartadas, o que é mais um motivo para Bolsonaro e Paulo Guedes aproveitarem o tempo ameno para avançar decisivamente no conserto do telhado fiscal brasileiro, especialmente com a aprovação da reforma da Previdência.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/1/19, quarta-feira.