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Mundo retoma – será que Brasil vai junto?

Autoridades econômicas mundo afora aprenderam as lições de da década de 30 e da crise global de 2008/2009, e com mega-artilharia monetária e fiscal evitaram o pior na pandemia, permitindo uma retomada precoce. No Brasil, porém, as dúvidas sobre a sensatez fiscal do Executivo e Legislativo podem pôr tudo a perder.

Fernando Dantas

26 de setembro de 2020 | 13h40

As autoridades econômicas globais aprendem com os erros, a se tomar recente artigo, no site VOX EU, dos economistas Paul De Grauwe, da London School of Economics,  e Yuemei Ji, do University College, também em Londres.

Intitulado “A tale of three depressions” (um conto de três depressões), o trabalho compara os colapsos econômicos da Grande Depressão dos anos 30, da grande crise financeira de 2008/2009 e, agora, da Covid-19.

Como se sabe, após o crash da Bolsa de Nova York em 1929, as políticas fiscal e monetária se mantiveram restritivas, e não se evitou a quebradeira bancária. Como resultado, o colapso econômico foi mais profundo e duradouro: ao longo de três anos, a produção industrial global caiu quase 40%, segundo dados mencionados pelos dois autores.

Em 2008, essa lição já estava bem aprendida. Houve reação monetária muito rápida, com as taxas básicas das principais economias indo muito velozmente para próximo de zero, e com provisão de liquidez e operações específicas para evitar o colapso bancário.

A reação fiscal expansionista também ocorreu, com destaque para os Estados Unidos, embora alguns críticos à época, como Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, tenham achado que foi pouco.

Em termos econômicos, o trabalho de De Grauwe e Yuemei mostra que a produção industrial global, na grande crise financeira, caiu cerca de 12% em pouco menos de um ano, e voltou a subir.

Em 2020, na crise da Covid-19, as autoridades econômicas do mundo desenvolvido (e de alguns países emergentes) entraram com uma resposta avassaladora tanto monetária quanto fiscal, mas sobretudo esta última.

A queda da produção industrial global em 2020, com o virtual “desligamento” das economias por causa das quarentenas, foi muito mais rápida do que nas duas outras grandes crises dos últimos 100 anos.

Em cerca de três meses, houve um tombo de 15%. Em comparação, na crise de 2008-2009 não chegou a haver um recuo tão grande, com retomada após a produção industrial cair aproximadamente 12%; e na Grande Depressão, a produção industrial demorou cerca de um ano para cair 15%.

A diferença, porém, é que, em 2020, a retomada também foi muito mais veloz do que nos dois outros episódios. Em pouco mais de seis meses, o recuo da produção industrial mundial (em relação ao momento imediatamente anterior à crise) já havia sido reduzido para 5%.

Boa parte da diferença de desempenho entre 2020, de um lado, e 2008/2009 e década de 30, de outro, não se deve a nenhuma qualidade específica das autoridades monetárias.

Como os autores do artigo deixam claro – e não só eles – a crise da Covid teve a “vantagem” de não ser causada por desequilíbrios intrínsecos ao sistema econômico e financeiro, mas sim por um agente externo, o coronavírus.

Crises “criadas em casa” pelo sistema econômico-financeiro têm o problema de que, na convalescença, os desequilíbrios que as causaram – e a terra arrasada que o desfecho destes desequilíbrios legou – levam tempo para corrigir.

Por exemplo, sistemas financeiros e famílias/empresas estropiados que não querem, respectivamente, nem emprestar nem tomar emprestado, o que mantém a atividade econômica atolada.

Na crise da Covid, entretanto, as autoridades econômicas de maneira geral tiveram a sabedoria de não deixar que o agente externo acabasse por criar problemas estruturais internos.

Os programas maciços de sustentação da renda, do emprego e de pequenos negócios evitaram – novamente, de maneira geral – um nível tão extremo de destruição econômica que poderia criar círculos viciosos realimentando o mau desempenho da atividade.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio, que está relativamente otimista quanto à retomada global, nota que a crise econômica da Covid-19 pode ser comparada a uma apneia – enquanto a cabeça estiver mergulhada na piscina e faltar oxigênio, o organismo passa por um mal estar muito agudo, mas que desaparece quase instantaneamente quando a respiração é retomada.

É claro que no mundo real da economia isso pode levar uns poucos trimestres e depende de não ter acontecido aquela destruição extrema do tecido econômico que as autoridades tentaram evitar.

Em relação ao Brasil, Rocha observa que muitos astros estão alinhados de forma que permitiria uma boa retomada: o balanço de pagamentos vem reagindo à forte desvalorização, a atividade está se recuperando e a inflação e os juros estão baixos.

Rocha acredita que, apesar de os muito pobres terem provavelmente gastado toda a renda inflada pelo auxílio emergencial, da classe média baixa para cima foi acumulada uma poupança (pelas restrições ao consumo do isolamento social, especialmente de serviços) que pode, ao ser desfeita, turbinar a demanda quando o auxílio acabar.

Mas ele ressalva que há uma peça fundamental que ainda não se encaixou e pode colocar tudo a perder, impedindo que o Brasil seja puxado pela retomada global: as contas públicas.

Segundo Rocha, há uma ansiedade crescente entre investidores sobre a possibilidade de as forças políticas levarem o governo a desistir da responsabilidade fiscal, como na gestão de Dilma, com os resultados desastrosos conhecidos. Após uma alta de 20 pontos porcentuais na relação dívida/PIB em apenas um ano, em função dos gastos com a pandemia, essa seria uma rota para o abismo.

Uma diferença importante, ressalva o economista, e que evita que ele fique muito pessimista, é que o ministro da Economia, Paulo Guedes, e a atual equipe econômica sabem que desancorar o País em termos fiscais é um imenso erro, ao passo que o time econômico de Dilma aparentemente não acreditava nisso.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/9/2020, sexta-feira.