bolsa

E-Investidor: Itaúsa, Petrobras e Via Varejo são as ações queridinhas do brasileiro

Não dá para agradar a todos

Quando o tema é a atuação do BC em momentos de estresse cambial, não há nada próximo a um consenso no mercado, e sempre haverá quem reclame. O único ponto com qual todos concordam é que o melhor remédio é reforçar os fundamentos econômicos, mas isto é uma tarefa que vai muito além do Banco Central.

Fernando Dantas

16 de agosto de 2019 | 12h32

A medida anunciada na quarta-feira (14/8) pelo Banco Central de realizar leilões combinados de dólar à vista e swaps cambiais reversos (de forma neutra em relação à posição cambial do setor público) foi recebida pelo mercado como uma decisão tecnicamente correta.

A demanda atual mais pressionada no mercado à vista de dólar do que no mercado de hedge cambial via swap cria uma distorção que eleva o cupom cambial, estimulando as posições vendidas dos bancos. A medida do BC busca justamente reequilibrar o jogo, contendo a elevação do cupom cambial.

Alexandre Ázara, economista-chefe da Mauá Investimentos, concorda com a medida do BC e só acrescenta que, na sua opinião, a autoridade monetária poderia apenas vender dólar à vista.

“Se, quando entrava muito dólar, o BC acumulava reservas, agora, que está saindo, ele poderia simplesmente vender para equilibrar o fluxo”, diz o economista.

Mas Ázara esclarece que essa opinião é somente um reparo, e que o fato de o BC se decidir a vender moeda vista, mesmo com swap reverso, já é um bom passo na direção correta, na sua avaliação.

Para além do acerto técnico da medida, entretanto, há uma discussão mais ampla sobre o comportamento do BC em momentos de estresse cambial.

No ano passado, em maio, quando a tensão eleitoral contribuiu para levar o câmbio a um pico de R$ 4,1, essa questão se fez presente. No que foi visto como um tropeço na comunicação do BC, houve algum mal-estar no mercado quando a Selic foi mantida em 6,5% na reunião do Copom de maio – e não reduzida para 6,25%, como muitos esperavam.

Agora, como naquele momento, há todo tipo de visão sobre qual seria a postura adequada do BC – é certo que não dá para agradar a todos.

É verdade que a questão hoje se faz presente com um nível de angústia possivelmente menor do que em maio do ano passado. A razão é que o Brasil melhorou os fundamentos com a aprovação da reforma da Previdência em duas votações na Câmara e o processo de estabilização macroeconômica avançou mais um pouco.

De qualquer forma, ainda se trata de um país vulnerável operando um sistema de metas de inflação diante de um cenário de maior pressão cambial. Situação certamente complexa para qualquer banco central.

Ázara está entre os que consideram que a atuação do BC está bastante adequada. O que está claramente sinalizado, para o economista, é a próxima redução da Selic em 0,5 ponto na reunião de 17 e 18 de setembro, para 6%.

“Eles não falaram nada sobre depois da próxima reunião”, acrescenta Ázara.

Ele quer dizer que a comunicação recente da autoridade monetária, na sua visão, não reduziu o espaço de manobra para lidar com um cenário externo mais adverso.

Ázara acha possível que, ao provável corte de setembro, sigam-se mais uma ou duas reduções de 0,25 na Selic – mas cuja conveniência o BC poderá avaliar com muito mais informações sobre a evolução da atividade, da inflação e dos eventuais efeitos de um real mais depreciado ao longo dos próximos meses.

Mas nem todo o mercado comunga dessa avaliação benigna sobre a atuação do BC. A alguns incomoda a “coincidência” entre os leilões de dólar à vista, em que pese a justificativa técnica, e o momento de estresse cambial e aversão a risco no exterior.

Uma outra corrente pensa que a autoridade monetária talvez devesse sinalizar menos indiferença aos movimentos do câmbio (para além da preocupação de praxe com os impactos da transmissão inflacionária nas decisões sobre a Selic, no âmbito do funcionamento normal do sistema de metas).

A objeção é sutil: ninguém defende que o BC tenha uma meta para o câmbio ou estabeleça um teto para a desvalorização.

O problema é que, em países com vulnerabilidades macroeconômicas, o diferencial entre o juro interno e o externo pode pesar muito na eventualidade de um aumento agudo da aversão a risco provocar uma corrida mais forte contra a moeda local.

A ideia seria de que o BC, de alguma forma, passasse ao mercado a sensação de que não está totalmente indiferente à questão do diferencial de juros num momento de estresse internacional muito agudo.

De qualquer forma, há consenso de que a tarefa principal em momentos de maior aversão a risco internacional é perseverar no reforço dos fundamentos macroeconômicos – o que depende mais da política fiscal do que do BC.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/8/19, quinta-feira.

Tendências: