“Não haverá ‘queima’ da dívida pela inflação”

Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, refuta ideia de que impasse fiscal levará à alta da inflação, e aponta sinais de que, não de forma imediata, problemas nas contas públicas poderão ser encaminhados. Um dos fatores positivos para a economia brasileira, para o analista, é o apetite dos estrangeiros por ativos nacionais em um mundo de juro zero.

Fernando Dantas

04 de março de 2016 | 10h24

As recentes especulações de analistas sobre formas não fiscais de lidar com a trajetória crescente da dívida bruta parecem despropositadas a Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco. Têm sido comentados hipotéticos desfechos para os problemas de solvência pública via inflação alta e crescente ou por alguma forma de intervenção no mercado de títulos da dívida pública – seja uma redução forçada da taxa básica de juros pelo BC ou até, na pior das hipóteses, algum tipo de ação mais traumática nos direitos dos detentores de papéis públicos.

Evidentemente, ninguém está falando que essas possibilidades estejam agora na mente das autoridades nem que acontecerão a qualquer momento – seria inclusive irresponsável fazê-lo. O raciocínio dos analistas mais pessimistas é de que a crise política impede que a solução fiscal seja dada ao problema de solvência. Assim, o País seria arrastado para as piores “soluções”, que acabariam se tornando inevitáveis em algum momento futuro. Muitos acham que a inflação, por ser menos truculenta e lesiva do que medidas diretas na dívida pública, seria o caminho mais natural.

Barros não poderia discordar mais dessas visões: “Refuto categoricamente que a inflação será a opção para queimar a dívida; já se foi o tempo disso no Brasil e a inflação já foi longe demais – ela cairá a partir de março e acho que o BC terá até espaço para reduzir a Selic em julho” (a entrevista foi realizada na quarta-feira, 2/3/16, antes do anúncio da última decisão do Copom).

Em relação ao problema fiscal, o analista acha que “a solução é focar no intertemporal e fazer o ajuste de que o País precisa, e que chamo de governança orçamentária”. Ele diz sentir que há um claro amadurecimento em várias frentes do tema da Previdência e de medidas disciplinares do gasto. Para Barros, a própria gravidade da crise acaba contribuindo para o encaminhamento das soluções que normalmente são vistas como politicamente mais difíceis.

O economista vê a relação dívida-PIB piorando ainda por uns dois ou três anos, mas de forma mais lenta do que muitos analistas estão prevendo. “Esse processo será absorvido pela retomada da confiança com a própria queda da inflação corrente e com a eventual aprovação, ainda que acanhada, de algumas reformas, mesmo numa situação de turbulência política – que, diga-se de passagem, estará longe de ser em 2016 tão caótica como foi em 2015”.

Ele nota também que “os estrangeiros carregam alguma convicção de que, em dois anos, haverá mudanças políticas no Brasil na direção de maior apetite por reformas e melhor governança – e por isso estão dispostos a aproveitar as belíssimas oportunidades de arbitragem em um mundo de juro zero”. O economista acrescentou que, utilizando a metodologia BMP5, que vigorou até 2014, o déficit em conta corrente do Brasil deve ser de praticamente zero em 2016.

O apetite dos estrangeiros, por sua vez, para o economista-chefe do Bradesco, ajudaria a explicar por que os problemas políticos e as incertezas fiscais não estão abalando o preço dos ativos no Brasil. Ele nota que o real vem sendo “uma das moedas mais comportadas do mundo”. Ainda em termos de dados que destoam dos prognósticos mais pessimistas, Barros aponta que a inflação implícita na comparação entre títulos públicos pré e pós-fixados está recuando, e até as expectativas de inflação do Boletim Focus do BC pararam de piorar – na última divulgação, a projeção mediana do IPCA de 2016 caiu para 7,57%, comparada a 7,62% uma semana antes. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/3/16, terça-feira.