Não tão ruim, mas nada a celebrar

Primeiro baque econômico da pandemia no Brasil, concentrado no segundo trimestre, não será tão ruim quanto as previsões mais pessimistas. Mas isso não quer dizer que a retomada também surpreenderá positivamente.

Fernando Dantas

02 de julho de 2020 | 20h43

Os resultados da produção industrial em maio vieram ligeiramente melhores que as estimativas de analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast. Houve alta de 7% em relação a abril, com ajuste sazonal, e queda de 21,9% ante maio de 2019. As medianas das projeções para essas duas bases de comparação eram de, respectivamente, alta de 6,15% e queda de 22,2%.

Somada a outros indicadores relativamente favoráveis (em relação à catástrofe esperada), a produção industrial de maio compõe o quadro de uma ligeira animação ligada ao fato de que a queda da economia causada pela pandemia pode ser um pouco menor do que o previsto no momento de maior pessimismo.

Luana Miranda, economista do Ibre/FGV, com foco em atividade, nota que o baque inicial da pandemia, que, no Brasil, concentrou-se no segundo trimestre, já está razoavelmente bem mapeado.

A projeção do Ibre de queda do PIB no segundo trimestre, na comparação com o primeiro (ajustada sazonalmente), é de 9,8%, mas Luana observa que leves ajustes ainda podem ocorrer. De qualquer forma, ela diz, “vai ser uma queda de 9% a 10%”.

Na produção industrial de maio, o resultado veio bem próximo ao projetado pelo Ibre, mas a economista nota que a indústria extrativa teve desempenho pior do que o previsto, e a de transformação, um pouco melhor.

Como a indústria de transformação é um componente mais importante do PIB, o resultado de maio pode dar um ligeiro viés de alta na projeção do segundo trimestre, mas nada muito significativo.

Essa queda de 9% a 10% no segundo trimestre, que já estaria bem mapeada, indica que as projeções mais pessimistas para o PIB de 2020, com queda de 9% a 10% (a última projeção do FMI, aliás, está nessa faixa), se tornaram mais remotas, como explica Luana. Para que isso ocorresse, a pancada inicial da pandemia no segundo trimestre deveria ter produzido uma queda em torno de 15%.

Ela ressalva que uma eventual segunda onda da pandemia no segundo semestre extremamente severa, que levasse a uma nova rodada de quarentena de grau semelhante ao da primeira, ainda poderia levar o tombo do PIB no ano para próximo de 10%. Mas não é esse o cenário base da maioria dos analistas.

Há, portanto, uma “boa notícia”, como nota Carlos Kawall, diretor do Asa Bank, que é o fato de que os piores cenários econômicos imaginados no momento de maior pânico da pandemia provavelmente não ocorrerão.

Mas tanto ele quanto Luana demonstram ceticismo em relação a qualquer animação maior quanto ao que está por vir.

No caso da pesquisadora do Ibre, a ideia é que o bom mapeamento já existente sobre o segundo trimestre não se estende, de forma alguma, ao segundo semestre, sobre o qual pairam enormes incertezas.

Se o tombo econômico inicial da pandemia foi menor do que o projetado pelos mais pessimistas, daí não decorre que a retomada também será mais rápida do que se pensava.

Kawall nota que a leitura um pouco mais otimista atividade que vem sendo feita refere-se a alguns indicadores mais convencionais, como a produção industrial, somados a variáveis como carga gerada de energia e consumo de óleo diesel. O que todos esses índices têm em comum, entretanto, é refletir mais a produção de bens do que os serviços, sendo que estes últimos representam o setor mais atingido pela pandemia.

Por outro lado, o índice de venda no varejo na Cielo mostra quedas desastrosas em itens de serviços como bares, restaurantes, viagens e turismo.

O consumo de gasolina, acrescenta o economista, também está muito deprimido, contrastando com o de óleo diesel. Enquanto o primeiro está ligado à circulação das pessoas, e, portanto, também aos serviços, o segundo é mais relacionado justamente à produção de bens.

Na destruição de cerca de 1,4 milhão de empregos formais entre março e maio, registrada pelo Caged, aproximadamente 1 milhão foram em comércio e serviços.

Por outro lado, segundo Kawall, o auxílio emergencial, a grande injeção de recursos pelo governo para se contrapor à perda de renda das famílias por conta da pandemia, pesa muito mais nas regiões e nos Estados mais pobres do Brasil, como o Nordeste e o Maranhão, por exemplo, do que nos mais ricos, como o Sudeste e São Paulo.

Em relação a isso, Kawall faz um argumento sutil, mas nem por isso pouco contundente. Deixando bem claro que não está criticando o auxílio emergencial, o economista nota que as partes mais pobres do Brasil não são necessariamente as que sofreram mais o baque econômico da pandemia relativamente ao status anterior.

Áreas pobres do Nordeste, em relação a áreas ricas do Sudeste, muitas vezes têm proporção maior de funcionários públicos e de pessoas que recebem benefícios sociais como o Bolsa-Família e o LOAS. Dessa forma, mesmo estando num nível bem mais baixo, a perda relativa de renda e consumo nos rincões mais pobres, num evento como o da Covid-19, pode ser menor. Mas é para lá que está indo o grosso do auxílio emergencial.

Novamente frisando que está falando de impacto econômico, e não em justiça distributiva, Kawall acrescenta que, nos principais centros econômicos do País, o efeito do auxílio emergencial pode ser bem pequeno – o que não é algo que contribua para uma retomada mais vigorosa da economia.

Já os indicadores de crédito, uma variável mais importante para a parte mais dinâmica da economia, ainda mostram um quadro bastante desanimador, tanto para empresas quanto para famílias.

Há ainda a questão do aumento da poupança por parte de quem conseguiu manter emprego e renda, especialmente das classes médias e alta, com gastos enviesados para os serviços, e que, portanto, poupam mesmo que involuntariamente pelo simples efeito de ficar em casa. Novamente, a clientela do auxílio emergencial, mais pobre, tende a usar essa renda adicional para comprar mais bens do que serviços.

Kawall se pergunta o que vai acontecer com cerca de 12 milhões de trabalhadores que têm seu emprego provisoriamente preservado pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, de redução proporcional de salário e jornada e suspensão temporária do contrato de trabalho.

Essas pessoas estão sendo remuneradas pelo seguro-desemprego durante a duração de dois ou três meses do Programa Emergencial, e têm a vaga garantida por mais um período equivalente ao do programa quando este acabar.

Mas e depois? Qual a segurança que as empresas terão para manter essa massa enorme de contratados numa conjuntura econômica tão difícil e incerta quanto a de 2020?

Dessa forma, a boa notícia de que o segundo trimestre foi menos catastrófico do que poderia ser deve ser absorvida com muita sobriedade pelo governo. A corrida de obstáculos mal começou.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/7/2020, quinta-feira.