Narrativa política versus política econômica

Disputa político-partidária leva a uma visão rasa e equivocada das políticas econômicas, e é um entrave ao caminho da racionalidade. Era FHC não representou o fracasso do "neoliberalismo", Dilma não é a única responsável pela atual crise e, quando a economia se estabilizar, não terá sido pela saída de Joaquim Levy.

Fernando Dantas

08 de janeiro de 2016 | 18h34

Um dos grandes entraves a que um país conduza uma política econômica racional – o que não quer dizer perfeita, mas guiada pelo bom senso e pelas melhores práticas conhecidas, pragmática e capaz de corrigir os próprios erros – é que políticas econômicas são elementos importantes de narrativas políticas em conflito. Na disputa pelo poder, muitas vezes é crucial que um determinado grupo político demonstre para o eleitorado que a condução da economia pelos seus adversários foi desastrosa e ruinosa.

Por outro lado, as consequências na vida real dos cidadãos de políticas econômicas de diferentes graus de qualidade ocorrem em padrões extremamente irregulares. Os efeitos bons ou ruins de políticas corretas ou equivocadas podem acontecer com diferentes defasagens de tempo e intensidades, ao capricho dos inúmeros fatores que as autoridades econômicas não controlam – o quadro político, a economia global, os juros internacionais, os ciclos de commodities, os eventos climáticos, a competição de outras nações, etc.

Essa dificuldade de discernir causa e efeito de políticas econômicas aumenta ainda mais o poder das narrativas políticas. O eleitorado é induzido a acreditar que determinados programas ou visões ideológicas são corretos apenas porque o grupo político que se beneficia destas narrativas foi mais eficiente em vendê-las, e teve mais sorte para tanto.

As preferências eleitorais, portanto, são inevitavelmente contaminadas pela máquina de propaganda que demoniza ou exalta – sem meios termos – determinadas políticas e visões de mundo. Isto não apenas dificulta a chegada ao poder de forças que representem o caminho da racionalidade, como predispõe a sociedade contra políticas econômicas sensatas, quando o governo de plantão se vê quase obrigado a tentar praticá-las, esgotado o arsenal das ideias e iniciativas extravagantes fracassadas.

A história recente do Brasil é plena de exemplos dos problemas mencionados acima. Do plano Real até o final da gestão de Antônio Palocci na Fazenda no início primeiro mandato de Lula, o País levou a cabo um grande esforço reformista. Foi uma trajetória extremamente acidentada, com muitas crises e muitos erros, mas havia um inegável fio condutor de racionalidade a conduzi-la.

A lógica política, porém, levou o PT a demonizar essa fase como um desastre provocado pelo neoliberalismo, com exceção apenas do fim da inflação alcançado com o plano Real. Curiosamente, Lula amainou os ataques ao tipo de política econômica da era FHC na iminência da sua primeira eleição – premido pela piora dos mercados – e iniciou seu governo dando continuidade a ela. A partir do desarranjo político do Mensalão, entretanto, a crítica à política “neoliberal” da era de reformas virou uma das principais armas do arsenal eleitoral petista, incluindo o eficaz ataque às privatizações.

Com os eleitores “comprados” nessa visão antiliberal, plasmou-se o caminho que conduziria à nova matriz econômica e seu fracasso. Mas mesmo na crítica à nova matriz revela-se também os efeitos da guerra político-partidária. Não é preciso muita isenção para reconhecer que parte dos atuais problemas deriva da tendência de longo prazo, anterior mesmo ao governo FHC, de aumento explosivo do gasto público. Da mesma forma, é evidente que a queda das commodities produziu, sim, choques de ofertas e problemas econômicos não só no Brasil, mas em diversos países, como Chile, Peru e Colômbia, por exemplo.

O que os erros da nova matriz fizeram foi amplificar tremendamente os efeitos negativos do choque de oferta e privar o Brasil de quaisquer ferramentas contracíclicas para a eles se opor. No entanto, uma narrativa que ganhou força recentemente atribui a crise econômica inteiramente à Dilma e à nova matriz, com o corolário ilusório de que o impeachment da presidente seria meio caminho andado para o País resolver seus principais problemas econômicos.

A saída de Levy

Finalmente, há o risco hoje de que mais uma narrativa fantasiosa venha em breve a ser vendida ao eleitorado. No governo e no PT, fala-se que a missão principal do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, é estabilizar a economia, e depois fazê-la voltar a crescer. Supondo que isso ocorra – e certamente vai ocorrer um dia, a grande interrogação é quando –, está preparado o caminho para se propalar que o ajuste econômico encabeçado pelo ex-ministro Joaquim Levy foi duro demais, e que, quando a correção foi flexibilizada, à moda petista, a economia pôde enfim reencontrar o caminho do crescimento.

Dado que a maioria das previsões para 2016 é extremamente negativa, sobretudo no mercado de trabalho, não parece haver hoje muito espaço para que a narrativa descrita acima “pegue”. Mas esta possibilidade não deveria ser 100% descartada.

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV, nota que em dezembro, pelo terceiro mês consecutivo, seu indicador de “probabilidade de recessão” veio abaixo de 50%, e pelo segundo mês consecutivo, próximo de zero. Ele explica que isso não quer dizer que bons tempos econômicos estão chegando, mas, por outro lado, as leituras recentes do indicador reforçam a probabilidade de que o “fundo do poço” tenha sido no terceiro trimestre de 2015, ou no início do quarto.

Esse incipiente alívio cíclico, se de fato vier a ser confirmado (Borges é muita cauteloso em relação às conclusões que tira do seu recém-criado indicador), pré-data a saída de Levy e nada tem a ver com as diferenças de gestão dos dois ministros.

O risco de atribuir qualquer melhora futura da economia à saída de Levy é o de novamente construir uma narrativa que subestime a importância da responsabilidade fiscal. Para não falar na possível desvalorização do excepcional trabalho do ex-ministro em muitas esferas que vão além do ajuste fiscal, como o fortalecimento de órgãos da Fazenda, como Carf e PGFN, e entidades setoriais (CVM, Susep), e que inclui um legado de projetos prontos ou em andamento, nas áreas tributária, previdenciária, de qualidade do gasto público, de política comercial, contratação e financiamento em infraestrutura, etc.

É uma agenda valiosa que, aliás, não parece conflitar com a visão de mundo e de política econômica que Barbosa vem defendendo nos últimos anos. Vender a ideia de que a saída de Levy ajudou a melhorar o Brasil seria, na verdade, mais uma construção de narrativa política equivocada que só piora o País. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada em pela AE-News/Broadcast em 8/1/16, sexta-feira.

 

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