Negociar é melhor que “enterrar”

Lula orgulha-se de ter "enterrado" as negociações da Alca junto com parceiros bolivarianos, mas Brasil está cada vez mais isolado comercialmente. Para onde irá a política comercial com a prevista troca de governo?

Fernando Dantas

01 de maio de 2016 | 21h28

Está no site do Instituto Lula. Em matéria de 9/9/2015, intitulada “UPA argentina recebe o nome de Luiz Inácio Lula da Silva”, pode-se ler o seguinte: “O ex-presidente lembrou que teve o privilégio de ser presidente quando Néstor Kirchner foi presidente da Argentina e que ‘foi com Kirchner, Chávez, Correa, que enterramos a Alca aqui em Mar del Plata em 2005”.

Pouco mais de dez anos depois dessa “vitória” de Lula e da trupe bolivariana, o Brasil está mais isolado comercialmente do que nunca. O multilateralismo comercial da Organização Mundial do Comércio (OMC) está enfraquecido, com a rodada Doha arrastando-se interminavelmente, e os países mais dinâmicos engajam-se em negociações de blocos regionais ou que até extrapolam este conceito – como a Parceria Trans-Pacífica (TPP), acordo comercial entre Estados Unidos e mais 11 países das Américas e da Ásia.

Enquanto isso o Brasil, orgulhoso por ter destruído a Alca – como se os brasileiros não tivessem capacidade de defender de forma eficaz os seus interesses numa negociação com a maior economia do mundo, num exemplo rematado de “complexo de vira-latas” –, ainda aposta suas fichas no Mercosul, que com muito esforço conseguiu fechar acordos com Egito, Palestina, Israel e os países do sul da África.

Com a perspectiva de mudança do governo, caso o Senado aceite julgar o pedido de impeachment, há uma expectativa de que a guinada da política econômica numa direção mais liberal estenda-se também para a política comercial. Assim, há grande curiosidade sobre quais seriam os primeiros passos do senador José Serra (PSDB-SP), caso se confirme a informação que circula de que ele será o ministro das Relações Exteriores.

José Augusto de Castro, presidente da AEB, observa que “não adianta ficar privilegiando o comércio com a África, que representa 3,5% do comércio mundial, e a América do Sul, que representa 4%, e 3% sem o Brasil – isso é focar em 6,5% e esquecer os restantes 93,5%, que estão em grande parte nos Estados Unidos, na Europa e na China”.

Castro considera que pode se abrir uma oportunidade de reformar o Mercosul, um bloco que ele acha que o Brasil não deve descartar, porque hoje a Argentina representa um dos maiores compradores de produtos manufaturados do Brasil. Para o presidente da AEB, com Mauricio Macri na presidência da Argentina e um eventual governo Temer no Brasil, abre-se o espaço para mudanças.

No limite, ele vê a alternativa de transformar o Mercosul de uma zona aduaneira numa zona de livre comércio, mas acha imprescindível que os parceiros tenham pelo menos liberdade para fazer acordos e que o próprio bloco se engaje com mais energia em negociações mais ambiciosas.

Uma prioridade de curto prazo para um novo governo, na sua visão, seria focar no acordo Mercosul-União Europeia e pensar seriamente em abrir negociações diretas com os Estados Unidos. Com o TPP e o acordo entre Estados Unidos e União Europeia, as commodities agrícolas americanas ganharão uma vantagem em relação às brasileiras, ele alerta.

Castro pensa ainda que o Brasil deveria buscar alguma forma de aproximação ou participação na Aliança para o Pacífico, que reúne Chile, Peru, Colômbia e México. Para isso, o País deveria se desvencilhar da camisa-de-força do Mercosul, que força seus membros a fazerem negociações conjuntas.

Já é tempo de o Brasil poder se orgulhar de construir, e não de destruir, negociações comerciais. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 29/4/16, sexta-feira.