Covid-19

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Nem tanto ao mar nem tanto à terra

A ata do Copom mostra que o Banco Central está atento aos temores das duas correntes do mercado financeiro que se digladiam sobre como a política monetária dever reagir à crise da Covid-19.

Fernando Dantas

14 de maio de 2020 | 10h38

A ata da reunião de maio do Copom, divulgada na terça-feira (12/05), mostra que o Banco Central prefere trilhar o caminho do meio em relação à situação singularíssima da política monetária no Brasil frente à crise global do coronavírus.

O choque da Covid-19 é poderosamente desinflacionário, e atinge uma economia que, pré-pandemia, já operava com grande capacidade ociosa e uma enorme dificuldade para acelerar além do ritmo medíocre de pouco mais de 1% ao longo do triênio 2017-2019.

Não é surpresa que as metas de inflação – em particular a de 2021, ano que vai se tornando central no horizonte relevante para a política monetária – estejam em risco de serem descumpridas para baixo. O funcionamento do regime de metas recomenda, em situações desse tipo, novos cortes da Selic.

Mas há complicadores. Um dos mais discutidos é a taxa de câmbio. O real vem sofrendo uma enorme desvalorização.

Parte dela acompanha o que ocorre com as moedas de outros países emergentes comparáveis ao Brasil em termos de suscetibilidade do câmbio ao apetite de risco global.

Mas há uma parcela adicional da depreciação do real que é coisa nossa. Não chega a ser um enigma que esteja ocorrendo. O Brasil se destaca hoje no mundo como um dos países afetados pela Covid-19 com a pior reação de política pública à epidemia, especialmente nos quesitos propriamente sanitários.

Na área econômica, o esforço do presidente Jair Bolsonaro de tumultuar ao máximo vem sendo “bem-sucedido”. Cresce a cada dia o temor de que os enormes gastos de combate à crise, desenhados para serem temporários, se prolonguem indefinidamente.

A esperança de que venham reformas pós-crise, com um presidente cuja popularidade recua o suficiente para torná-lo refém das corporações, mas não o suficiente para que seja destituído, parece cada vez mais exótica.

Essas questões cambiais e fiscais perpassam a ata. No caso do câmbio, dado o spread de risco do Brasil em relação aos Estados Unidos, os membros do Copom discutiram até que ponto haveria um limite, superior a zero, para novas quedas da Selic, sob pena de “instabilidade nos mercados financeiros e nos preços dos ativos”.

Como observou o economista e consultor Alexandre Schwartsman, ex-membro do Copom, em relatório divulgado hoje, aquela última expressão é “Copomspeak” (linguagem de Copom) para taxa de câmbio.

Além dos seus possíveis impactos no câmbio, a questão do risco de descontrole fiscal também apareceu diretamente na ata do Copom, como algo que pode aumentar a taxa neutra de juros da economia. Tudo o mais constante, juros neutros mais altos significam Selic mais alta. Embora mais projetada ao futuro em termos de seus possíveis impactos, essa questão do juro neutro também tampouco ajuda que qualquer banco central corte os juros com plena segurança.

O grande complicador (ou simplificador, dependendo do ângulo) de tudo é que os termômetros principais do sistema de metas, que são as projeções dos modelos do Banco Central e as expectativas inflacionárias, não registram ainda sinais de que o câmbio e/ou o temor de descontrole fiscal estejam impedindo o mergulho da inflação para o território abaixo das metas.

Na ata, o BC deixa claro que esses termômetros permanecem como o guia básico das decisões do Copom. Ainda assim, fica evidente também que, na avaliação do balanço dos riscos, o Copom está longe de indiferente aos potenciais impactos do câmbio e da política fiscal no que poderia vir a acontecer com a inflação brasileira mais à frente.

A forma de expressar esse “nem tanto ao mar nem tanto à terra” parece ser a de deixar pré-agendado um novo corte na Selic na reunião de junho, condicional às circunstâncias, e com o propósito de que seja “o último” do atual ciclo.

Se, porém, as forças desinflacionárias surpreenderem e serem ainda mais potentes do que se visualiza hoje, ninguém deve ficar mortalmente ofendido com o BC se este revisar o plano de voo do “último corte” na reunião de junho, em algum momento do futuro.

A impressão é de que o principal para o Copom é mostrar que ele entende as duas correntes que se digladiam em torno da política monetária.

Sim, a desinflação é brutal e o BC tem que agir. E não, não se podem ignorar solenemente riscos como o câmbio e o fiscal.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/5/2020, terça-feira.

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