Ninguém disse que ia ser fácil

É um engodo dizer que a quebra de expectativas em relação à recuperação em 2017 desmascara o engodo de que apenas a troca de presidentes resolveria o problema da economia. Basta saber qual é o diagnóstico por detrás da estratégia da atual equipe econômica para entender que todos sabem que o desafio à frente é dificílimo e que o sucesso é incerto.

Fernando Dantas

27 Dezembro 2016 | 17h30

O grande desapontamento em relação à retomada da economia neste final de 2016 tem levado a algumas análises rasteiras e apressadas sobre o que teria sido um engodo “golpista”: a ideia de que a troca de Dilma Rousseff por Michel Temer na presidência levaria automaticamente à resolução dos graves problemas econômicos brasileiros e à retomada de um ritmo satisfatório de crescimento do PIB.

Há várias camadas de equívocos nesse tipo de afirmação, que precisam ser desbastadas cuidadosamente. Em primeiro lugar, quem vê com bons olhos, de forma geral, o trabalho da atual equipe econômica (como este colunista) não necessariamente apoiou o impeachment ou passou um atestado de impecabilidade sobre a destituição da presidente Dilma Rousseff. Pode tê-lo feito ou não. Não existem ligações rígidas e obrigatórias entre as posições sobre as duas questões.

Por outro lado, é provável que a maioria daqueles que torcem pelo sucesso da atual estratégia econômica reconheça a legitimidade do governo Temer, o que é bem diferente de apoiá-lo da forma como se faz quando o candidato em quem se votou é eleito.

Passando à questão econômica propriamente dita, é sabido que a orientação geral do governo Temer – e a escolha da sua equipe econômica – está alinhada com o documento “Uma Ponte para o Futuro”, que por sua vez se nutriu em diagnósticos como o do longo ensaio sobre a atual crise econômica produzido pelos economistas Mansueto Almeida (que foi para o governo), Marcos Lisboa e Samuel Pessoa.

Quem se deu ao trabalho de ler este último trabalho sabe muito bem que nada é mais distante da abordagem dos três economistas do que a ideia de que atual crise é tão fácil de ser superada que uma simples mudança de presidente resolveria o problema. Com certeza, os principais quadros da atual equipe econômica trabalham com a ideia de que seu sucesso é algo incerto e muito difícil. Obviamente, não se espere que Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, saia a público para alimentar o pessimismo. Isto não quer dizer que considere sua missão fácil e de sucesso garantido.

A enorme dificuldade do atual desafio pode ser entendida de forma direta e transparente a partir do diagnóstico formulado por Mansueto, Lisboa e Pessoa. A crise de hoje é, na verdade, o desfecho desastroso de dois processos nocivos. O primeiro, mais estrutural e profundo, foi a institucionalidade fiscal surgida a partir da Constituição de 1988, que condicionou que a despesa pública crescesse sistematicamente a uma velocidade muito superior à do PIB.

O segundo processo foi o desvio de política econômica conhecido como “nova matriz”, que teve suas raízes no governo Lula e se radicalizou durante a presidência de Dilma Rousseff. Os erros crassos da nova matriz agravaram muitíssimo o fim coincidente de dois ciclos, de certa forma ligados: o boom de commodities e o período em que um crescimento anormalmente forte da receita pública no Brasil mascarou o desequilíbrio fiscal estrutural.

O desafio hoje, portanto, é o de reconstruir a economia brasileira a partir da montanha de escombros depois de um terremoto tanto estrutural quanto conjuntural.  Somente um louco acharia fácil encarar essa tarefa a bordo de um governo extremamente impopular, com legitimidade questionada por uma parcela minoritária, mas substancial, da população, e ameaçado pela limpeza ética e legal da Lava-Jato.

Os que apontam o fiasco do suposto otimismo trazido pelo governo Temer embaralham, propositadamente ou não, dois processos diferentes.

O primeiro deles é o desafio econômico e fiscal em termos mais amplos – que, como já detalhado, é imenso e que jamais foi ignorado por quem quer que comungue, em parte ou no todo, do diagnóstico que dá base à atual política econômica.

O segundo processo é a retomada cíclica conjuntural, que sempre existirá, mesmo nos mais devastadores processos de deterioração econômica. De fato, a excepcional alta dos ativos financeiros nacionais do início até meados do ano e a elevação dos índices de confiança sobre o futuro de empresários e consumidores até há alguns meses alimentaram a expectativa de que a economia brasileira poderia encontrar o fundo do poço neste segundo semestre e retomar um crescimento bastante moderado em 2017.

Essa expectativa se frustrou, o que traz enormes preocupação aos gestores da política econômica. É sabido que recessões arrasadoras como a atual dão ensejo a “falsos positivos” de fundo do poço, isto é, sinais que não se confirmam de retomada. Isto não quer dizer, obviamente, que durarão para sempre. Mas o tempo adicional de sofrimento pode algumas vezes ser fatal, no sentido de ultrapassar o limite de tolerância da sociedade e do sistema político, abandonando-se políticas racionais em favor de tentativas populistas desesperadas e contraproducentes de reanimar a atividade; ou de criar círculos viciosos que tragam ainda mais para baixo a economia, como a queda de receitas tributárias levando a novos cortes de gasto, que deprimem a demanda e assim por diante.

Política monetária – É válida a discussão sobre se algum possível erro de sintonia fina possa ter causado ou estar causando esse desconforto suplementar que em teoria arrisca botar tudo a perder. O candidato atual a ser este erro é a postura alegadamente conservadora em demasia do BC no processo de afrouxamento monetário.

Longe, porém, de se tratar de um erro primário e óbvio, seria apenas uma possível – e longe de comprovada – falha da política monetária na operação de gigantesca dificuldade de desmontar o estrago inflacionário provocado pela nova matriz.

Como o BC trabalha permanentemente com “trade-offs”, há, embutido no suposto erro de excesso de conservadorismo, o indiscutível efeito colateral positivo da reancoragem de expectativas inflacionárias. A verdadeira questão, portanto, é saber se a reancoragem saiu cara demais em termos de prolongamento da recessão, diante das pressões sociais e políticas derivadas do delicado timing do ajuste, o que é uma possibilidade real. Só um ou dois anos de perspectiva histórica permitirão (se permitirem) responder a esta questão com um grau aceitável de consistência. E sempre é bom lembrar que, mesmo se houve erro (um grande “se”) na política monetária, há a possibilidade de que este seja corrigido a contento pela aceleração do processo de cortes da Selic.

Em resumo, ninguém em sã consciência achou ou acha que será fácil tirar o Brasil da atual armadilha. Existem chances de que a vertiginosa queda do PIB desde 2015 seja apenas o prólogo de um longo período (que poderia durar décadas) de decadência socioeconômica, embrulhado em tumulto social, inflação muito elevada e desgoverno populista. No processo de tentar evitar esse desastre, erros relativamente pequenos podem, sim, ser gotas d’água que aumentam a chance de um desfecho negativo. Entretanto, não só deve-se levar em conta que será a perspectiva histórica futura que indicará com mais clareza quais teriam sido de fato estes erros, como também o fato de que a melhor forma de evitar erros em jogos extremamente difíceis é deles não participar. Não é desta última postura que o Brasil está precisando no momento. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/12/16, terça-feira. É o último post de 2016 do colunista.