Notícia falsa muda eleição?

Economistas americanos indicam que notícias falsas têm impacto relevante, mas provavelmente não o suficiente para ter mudado o resultado das eleições nos Estados Undidos.

Fernando Dantas

25 de janeiro de 2017 | 15h28

O impacto das “notícias falsas”, compartilhadas em plataformas da internet como o Facebook, na recente eleição presidencial norte-americana é um tema de intenso debate entre os dois lados da polarização ideológica nos Estados Unidos. Agora, os economistas Hunt Allcott, da New York University, e Matthew Gentzkow, de Stanford, resolveram fazer uma análise mais rigorosa do tema, sobre o qual acabam de publicar um trabalho pelo respeitado National Bureau of Economic Research (NBER).

Entre as suas conclusões, está a de que as mídias sociais foram relevantes, mas não dominantes, na eleição; Donald Trump efetivamente foi muito mais “beneficiado” por notícias falsas do que Hillary Clinton. Finalmente, para que as notícias falsas tenham sido decisivas para o resultado da eleição, cada uma delas teria que ter um poder de persuasão equivalente ao de um grande número de inserções de propaganda eleitoral na TV (o que não parece provável).

Os dois pesquisadores foram motivados por fatos como o de que 62% dos adultos americanos consumem notícias por meio de redes sociais, e de que recentemente as notícias falsas mais populares foram mais compartilhadas no Facebook do que as matérias mais populares dos meios de comunicação tradicionais.

Num primeiro passo, Allcott e Gentzkow quantificam a importância relativa das mídias sociais utilizando trabalhos já publicados, dados novos de navegação na internet e uma pesquisa online conduzida por eles mesmos após as eleições com 1.200 pessoas. Esta pesquisa indica que 14% dos americanos consideram as redes sociais como a sua fonte “mais importante” de notícias sobre as eleições.

Numa segunda etapa, os economistas organizaram um banco de dados de notícias falsas (de acordo com sites de checagem de informações), com o número de compartilhamentos e classificadas entre favoráveis a Hillary e a Trump (isto é, na maior parte das vezes atacando o oponente). Eles acharam 30 milhões de compartilhamentos de notícias falsas anti-Hillary e 7,6 milhões de compartilhamentos anti-Trump.

Com um complexo procedimento que incluiu “falsas notícias falsas” (para dimensionar falsas lembranças), os pesquisadores investigaram na amostra de 1.200 pessoas a exposição e a credulidade dos americanos em relação às falsas notícias nas eleições. Os resultados, segundo Allcott e Gentzkow, indicam que, no máximo, o eleitor médio leu, memorizou e acreditou em 0,71 história falsa pró-Trump e 0,18 falsa história pró-Hillary.

Evidentemente, ninguém apreende uma fração de uma notícia falsa – na verdade, isto indica que uma proporção dos eleitores não foi afetada pelas falsidades das redes sociais.

Num último passo, usando um modelo de persuasão de eleitores e estimativas recentes do efeito de campanhas de televisão na decisão de voto, eles chegam à conclusão de que, para que o fenômeno da notícia falsa nas redes sociais tivesse mudado o resultado da eleição americana, seria preciso que cada notícia falsa tivesse o mesmo poder de persuasão que 36 inserções de propaganda eleitoral na TV. Dada as variações que diferentes hipóteses podem causar nesta simulação, os autores afirmam também que, no mínimo, uma notícia falsa teria que valer o mesmo que 13 comerciais de TV para que houvesse uma mudança do resultado da eleição.

Os autores fazem uma série de ressalvas sobre os próprios resultados, como o fato de que o universo de histórias falsas que utilizaram é apenas daquelas que foram arquivadas em sites de checagem de fato de destaque; que é difícil limpar os efeitos de “falsas lembranças” neste tipo de pesquisa; e que, pelo fato de a pesquisa ter sido realizada três semanas após as eleições, pode não ter captado o efeito de falsas notícias que foram de fato esquecidas.

Os autores sumarizam o artigo escrevendo que “nossos dados sugerem               que as mídias sociais não foram a principal fonte de notícias sobre a eleição, e mesmo as notícias falsas mais amplamente circuladas foram vistas por apenas uma pequena fração dos americanos”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/1/17, terça-feira.

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