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Nova comunicação no BC

Comunicado mais extenso da decisão do Copom é uma das mudanças para aprimorar a comunicação do Banco Central. Novo diretor de Política Monetária, Carlos Viana, tem trabalho acadêmico sobre comunicação do BC e a sua importância para a política monetária.

Fernando Dantas

21 Julho 2016 | 13h13

Há expectativa por parte de alguns analistas de mercado de que o comunicado da decisão da reunião do Copom de hoje, a primeira presidida pelo novo presidente do BC, Ilan Goldfajn, sofra mudanças na direção de algo mais parecido com os comunicados das reuniões do comitê de política monetária (FOMC) do Federal Reserve (Fed, BC norte-americano).

(esta coluna foi publicada antes da divulgação do comunicado. A mencionada expectativa foi confirmada)

O BC informou que o comunicado e a ata terão formatos distintos desta reunião em diante. A ata passará a ser divulgada na terça-feira – e não mais na quinta-feira – da semana seguinte às reuniões do Copom, que ocorrem na terça e quarta-feira.
O comunicado do FOMC, divulgado no dia da decisão de política monetária, é bem mais extenso do que os comunicados do Copom (pelo menos até hoje). No caso do Fed, o último comunicado, de 15 de junho, é um texto de seis parágrafos, que aborda questões do mercado de trabalho, consumo das famílias, investimentos, inflação e política monetária. O comunicado do FOMC também traz um resumo da visão do comitê sobre a evolução das condições econômicas e da política monetária.
Em contraste, o comunicado do Copom é extremamente enxuto, com o anúncio da decisão e um breve parágrafo para justificá-la. Em comum com o Fomc, o último parágrafo traz o nome dos participantes do comitê e como votaram.
“Os comunicados do Fed são uma prévia da ata, e acho que o Copom pode estar pensando em algo parecido, ou ao menos em aumentar um pouco o atual comunicado”, diz o economista-chefe de um banco nacional.
Independentemente de haver ou não mudanças significativas no comunicado, está claro que, com Ilan, o Banco Central vem fazendo um esforço para aprimorar sua comunicação, que foi um dos aspectos muito criticados durante a gestão do seu antecessor, Alexandre Tombini.
O novo diretor de Política Monetária, Carlos Viana de Carvalho, que foi economista do Fed de Nova York entre 2007 e 2011, já fez trabalho acadêmico ligado à comunicação do BC. O paper “Apenas palavras: uma análise quantitativa da comunicação do Banco Central do Brasil”, realizado com os coautores Fernando Cordeiro e Juliana Vargas, indica que a comunicação do BC perdeu quase toda a eficácia depois que Tombini chegou à presidência, no início de 2011.
O trabalho usou técnicas de linguística quantitativa, quebrando os comunicados do Copom em segmentos de conteúdo semântico. Com o Google, contabilizaram-se as associações, em comentários de terceiros sobre o comunicado, com o endurecimento ou o afrouxamento da política monetária. Por sua vez, relacionou-se esses trechos com movimentos na curva de juros. Em 2013, em coluna que escrevi sobre o trabalho, Viana observou que o resultado do exercício indicava que “a comunicação só mexia na curva de juros futuros de forma sistemática no período anterior ao Tombini”.
Ele explicou à época que esse resultado em teoria tanto poderia indicar uma comunicação ruim do ex-presidente do BC quanto uma comunicação tão boa que não causava nenhuma surpresa no mercado. A sua avaliação, porém, como economista e participante do mercado (era sócio da gestora Kyros, no Rio), era de que a hipótese de má comunicação era muito mais provável. Viana mencionava as muitas surpresas na comunicação do BC sob o comando de Tombini, incluindo sinalizações que não foram materializadas – críticas que o ex-presidente do BC continuou recebendo de alguns analistas até o final de sua gestão.
Agora, portanto, é muito provável que o trabalho de recuperação da credibilidade do BC – que já resulta em recuo das expectativas de inflação em 2017 – tenha como uma das frentes o aprimoramento da comunicação. O comunicado de hoje e a ata da próxima semana são passos iniciais neste caminho. (fernando.dantas@estadao.com)
Fernando Dantas é jornalista do Broadcast
Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/7/16, quarta-feira.