Nova equipe econômica será harmônica?

Fernando Dantas

25 de novembro de 2014 | 23h43

Os futuros ministros da Fazenda e de Planejamento, Joaquim Levy e Nelson Barbosa, têm tudo para iniciar de forma harmônica a gestão da economia no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Afinal, tomando-se o histórico de Levy e a atividade recente de Barbosa, o foco é o mesmo – a política fiscal. Numa segunda etapa, porém, podem aparecer divergências entre a visão de mundo mais liberal de Levy e a abordagem desenvolvimentista de Barbosa, ainda que temperada pelo pragmatismo e pela moderação.

Esta coluna parte do princípio de que as informações sobre o novo ministério – relatadas por todos os principais órgãos de imprensa e não desmentidas – estejam corretas, pois ainda não foram oficializadas.

No trabalho de arrumar a casa, é improvável que haja discordâncias entre a Fazenda e o Planejamento. Levy, como homem público da área econômica, encarna a ideia de ajuste fiscal, tendo se notabilizado tanto na Secretaria do Tesouro Nacional quanto na Secretaria Estadual de Fazenda do Estado do Rio como um duro gestor das contas públicas.

Barbosa, por outro lado, não só defende abertamente um ajuste fiscal de dois pontos porcentuais do PIB ao longo de alguns anos como vem trabalhando de forma mais detalhada nesta agenda. Ele acha possível atingir aquele objetivo com uma combinação de medidas como redução do custo fiscal dos empréstimos da União aos bancos públicos, estabilização das transferências de renda como porcentual do PIB, liberalização de preços de energia e combustíveis e reformas estruturais que poderiam atingir programas como o abono salarial e a pensão por morte, entre outras medidas.

Dessa forma, é possível pensar numa ação conjunta dos novos titulares da Fazenda e do Planejamento em que o primeiro ocupe-se do trabalho mais imediato de segurar as despesas e dizer não às muitas demandas, enquanto o segundo trabalhe numa agenda para dar sustentação à ação fiscal ao longo dos próximos anos.

No campo da política monetária, se de fato Alexandre Tombini permanecer à frente do Banco Central, não parece haver razão para muitos atritos na equipe econômica, pelo menos no curto prazo. Ironicamente, o ortodoxo Levy chegou a ter discordâncias com o ex-diretor de Política Econômica do BC, Afonso Beviláqua, quando este – como homem forte do BC de Henrique Meirelles – conduzia uma política monetária que o então secretário do Tesouro julgava severa demais; e o desenvolvimentista Barbosa por motivo inverso também divergiu do BC, já conduzido por Tombini, quando este iniciou o relaxamento monetário em 2011.

Esses dois episódios revelam que tanto Levy quanto Barbosa têm uma visão flexível e pragmática sobre a atuação do Banco Central, que independe em alguma medida de suas posturas ideológicas. Na atual conjuntura, deve haver convergência entre os dois e Tombini sobre a prioridade de reancorar as expectativas inflacionárias e colocar o IPCA de fato em trajetória de convergência para o centro da meta, de 4,5%.

O cenário de harmonia na nova equipe econômica torna-se um pouco menos seguro se e quando for ultrapassada a etapa da correção inicial. Em temas como política cambial, industrial e comercial, é bem possível que haja divergências substantivas entre a visão de mundo mais liberal de Levy e a abordagem desenvolvimentista de Barbosa. O consolo é que, se o País chegar ao momento em que estas diferenças se tornem centrais na política econômica, isto com certeza significará que a parte mais penosa do ajuste econômico – especialmente das contas públicas – já terá sido superada.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/11/14, segunda-feira.

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