Nova esquerda nos EUA?

Economista Noah Smith expõe o que seria a tentativa de construir um novo espaço para a esquerda nos Estados Unidos: à esquerda de centristas como Clinton e Obama, mas evitando o populismo à moda antiga.

Fernando Dantas

09 de outubro de 2019 | 12h55

Não é apenas no Brasil que o surto de polarização ideológica deixou os sistemas políticos de pernas para o ar. Em diversas partes do mundo, o espectro mais moderado do eixo político tenta se reencontrar e se reinventar.

Noah Smith, economista e articulista americano, recentemente buscou se reposicionar em relação ao rótulo de “neoliberal”, não sem antes dar uma leitura ao conceito bem mais generosa do que aquela que costuma vir da esquerda.

Em resumo, Smith, que poderia ser classificado como de centro-esquerda no debate econômico e ideológico americano, diz que o neoliberalismo pode ser bem-intencionado e tem virtudes. Ainda assim, ele o considera uma visão de mundo insuficiente para dar conta dos desafios da atual conjuntura econômico-política americana e global, especialmente da desigualdade.

O economista desenvolveu seu argumento numa longa thread no Twitter.

De certa forma, ele sintetizou o que seria uma espécie de nova posição no debate ideológico, à esquerda da centro-esquerda pró-livre mercado que caracterizou os governos Clinton, Tony Blair e (com algumas ressalvas) Obama.

Por outro lado, esse novo grupo estaria à direita, em termos relativos, ao esquerdismo mais tradicional, com tons de populismo, de figuras como o pré-candidato democrata Bernie Sanders ou o líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn.

A pré-candidata Elizabeth Warren, cujo favoritismo para ser a candidata democrata a enfrentar Trump em 2020 vem crescendo, é a esperança desse grupo como figura política que pode vir a representar o novo ideário (mesmo que, por enquanto, não esteja muito claro que ela será mais moderada que a esquerda tradicional com toques populistas).

Smith, de início, distingue o que a esquerda mais estridente vê como neoliberal – a ideologia de Thatcher, Reagan e Milton Friedman – do grupo que hoje se reconhece no rótulo: “liberais dos anos 90 que responderam ao fracasso do comunismo e aos excessos do libertarianismo [como ele classifica a ideologia de Thatcher e Reagan] criando um novo programa de políticas públicas tecnocráticas de centro-esquerda”.

O resumo da ideia, segundo Smith, encontra-se num manifesto de 1999 do economista Brad DeLong, que defende a globalização, o livre comércio e os fortes estados de bem-estar social da socialdemocracia.

Em resumo, o neoliberalismo “vê os mercados como os geradores fundamentais da prosperidade, e o governo como o meio para distribuir a prosperidade de forma mais equitativa”.

Mas Smith diz não se considerar um neoliberal, porque acredita que “os governos precisam fazer mais do que apenas redistribuir os resultados dos mercados livres”.

Assim, é preciso reforçar os sindicatos, porque os governos sozinhos não conseguem enfrentar as forças plutocráticas que lutam por mais vantagens para os ricos.

O governo também tem que pesar mais a mão na má distribuição da riqueza imobiliária (urbana e rural), com impostos, programas públicos de moradia, subsídios etc.

Ele também se posiciona a favor da política industrial, especialmente a científica, da promoção de exportações e até da “escolha de vencedores”, com os governos favorecendo a energia verde e outras tecnologias de carbono zero.

Smith defende ainda saúde pública nacional, o que, no caso americano, “é a nacionalização direta de um grande setor”.

Para o economista, “a discordância dos neoliberais com os esquerdistas vem menos dos seus objetivos – ambos querem uma sociedade próspera e justa – mas sim dos métodos que eles pensam que serão os mais efetivos para se chegar lá”.

É possível fazer algumas críticas aos argumentos de Smith. Já que, para ele, o neoliberalismo é o centro tecnocrático socialdemocrata, é importante dizer que esta ideologia não é apenas de redistribuição dos resultados do capitalismo, mas também de tentar equalizar ao máximo as oportunidades, ou condições na partida – educação, saúde, acesso aos serviços do Estado etc.

Além disso, alguns itens do seu ideário soam perfeitamente socialdemocratas: saúde pública universal, estímulo à ciência, subsídios à habitação popular.

No entanto, mesmo que sua descrição não esteja perfeita, o economista mirou de fato em algo que existe, e é novidade: a construção de uma nova posição de centro-esquerda, ou de esquerda não extremista, que deixe para trás o excesso de conciliação com o sistema representado por Blair, Clinton e Obama.

Do ponto de vista latino-americano, entretanto, a análise de Smith entra num terreno mais pedregoso.

Os neoliberais benevolentes da visão de Smith nunca foram aceitos como tal pela esquerda populista na região. Desde os programas de estabilização da década de 90, inspirados no Consenso de Washington, o centro tecnocrático na América Latina (com algumas exceções) vem sendo caracterizado – e ferozmente combatido – como um grupo de entreguistas ultraliberais, indiferentes à questão social.

Não está nada claro, por outro lado, que possa surgir no seio da esquerda populista da região, que gerou recentemente uma aberração como o chavismo, a síntese ideológica racional e madura da proposta do economista.

Adicionalmente, as jovens democracias latino-americanas de maneira geral têm pouco desenvolvimento institucional de defesa do interesse difuso. Assim, frequentemente a intervenção do Estado, com supostos objetivos nobres de redução da desigualdade ou promoção do crescimento econômico, acaba canalizando recursos públicos escassos para grupos privilegiados.

Em síntese, a proposta política de Smith parece ser construtiva – e aponta para uma tendência real – no caso dos Estados Unidos e possivelmente de outros países ricos. Para o contexto latino-americano, porém, parece uma proposição mais arriscada.

Isso não quer dizer, contudo, que o centro na América Latina, sem a pretensão de reinventar a roda ideológica, não possa incluir na sua plataforma, de forma mais incisiva, políticas de redução da pobreza e da desigualdade e de equalização de oportunidades.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/10/19, terça-feira.

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