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Novo mergulho à vista?

Num momento cambaleante da retomada, condições financeiras se apertam na economia brasileira, com alta de juros de mercado e do dólar e queda da bolsa. A possibilidade de um novo mergulho recessivo ainda não está no centro do radar, mas já surgem aqui e acolá preocupações com este risco. Conversei com Tony Volpon, economista-chefe do UBS no Brasil.

Fernando Dantas

18 Maio 2018 | 20h44

Tony Volpon, economista-chefe do UBS no Brasil e ex-diretor do Banco Central (BC), considera que uma “double dip recession”, isto é, um novo mergulho na recessão, não pode ser descartado neste momento. Para ele, é preciso proteger a economia, dado a fragilidade da tíbia recuperação, dos choques que a atingem atualmente. Volpon considera que o BC mostrou recentemente que está tendo dificuldade em fazer esse trabalho.

“Agora está acontecendo o que eu mais temia, um aperto generalizado nas condições financeiras, com alta do dólar e dos juros e queda da bolsa”, comenta o economista.

Volpon já vem defendendo uma intervenção mais pesada no câmbio por parte do BC há algum tempo. Para ele, as ações recentes da autoridade monetária acabaram “colocando o câmbio como variável na mesa”, o que estressou o mercado de juros que foi induzido pela falha de comunicação – a já célebre entrevista à Globonews de Ilan Goldfajn, presidente do BC – a apostar em mais um corte da Selic.

Para Volpon, diante dessa situação era previsível que haveria uma maior busca de hedge cambial e uma ligação mais direta dos juros futuros com o nível do câmbio.

“Por ambos os motivos o BC deveria ter ofertado hedge ontem, na abertura pós-Copom”, prossegue o economista.

O risco de um “double dip” por enquanto não está no centro do radar da maioria dos analistas, mas já se vê aqui e acolá algumas manifestações de apreensão.

Comentando o recuo do Indicador Antecedente da Economia (IACE) de 0,8% entre março e abril, o economista Paulo Picchetti, da FGV, comentou que “somando esse resultado à quarta queda consecutiva do ICCE (Indicador Antecedente Composto da Economia), a probabilidade associada a uma reversão do ciclo elevou-se ligeiramente”. Ele frisou, entretanto, que “por enquanto, um crescimento da atividade ao longo do ano continua a ser esperado, mas em menor intensidade”.

É verdade que o Brasil, por um lado, enfrenta a maré de alta dos juros americanos com trunfos de que não dispunha em episódios similares do passado: baixa inflação e uma posição externa muito sólida.

Por outro lado, além das bastante comentadas fragilidades fiscal e política, há o problema da recuperação extremamente lenta.

Pareceu se formar entre os analistas uma visão majoritária de que, a despeito do tropeço na comunicação, o Copom fez a coisa certa ao manter a Selic em 6,5% esta semana. Esta seria a posição mais sensata para administrar as pressões no câmbio.

O problema, porém, como notou Volpon, é que há um custo em termos de apertar as condições financeiras da economia, no exato momento em que esta perde perigosamente o gás. O economista do UBS acha que esse custo poderia ter sido reduzido se o BC tivesse atuado melhor nas recentes trepidações, mas, sem dúvida, não tendo feito o dever de casa fiscal, o Brasil estava fadado a ter que pagar algum preço.

Em suas mais recentes apresentações a investidores, Volpon tem dito que a estratégia muito gradual de ajuste fiscal do Brasil “tem a vantagem de ser mais aceitável politicamente, mas traz o risco de que qualquer desdobramento, político ou externo, possa ter sérias consequências para a economia”.

Do ponto de vista da economia política, tudo indica que um novo mergulho recessivo seria muito negativo para as candidaturas de centro-direita preferidas pelo mercado. O governo de Michel Temer já é rejeitado por uma enorme parcela da população, mas sua política econômica ainda goza de prestígios junto às elites. Um fiasco econômico mais retumbante de Temer será uma arma poderosa para a oposição populista.

É preocupante, portanto, que o estresse cambial deixe o BC de mãos amarradas para aumentar os estímulos à economia. É uma situação na qual a piora externa e as incertezas política podem se retroalimentar, com o governo relativamente impotente para reagir. Os próximos meses vão testar duramente a estratégia gradualista de ajuste. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/5/18, sexta-feira.