Nuances da ata do Copom

Mensagem no BC na ata sobre última reunião do BC foi de cautela. Interpretações, entretanto, variam, desde a que vê uma próxima mexida na Selic somente para cima até a que considera que o BC pode ainda vir a colocar o "balanço de riscos" em nível neutro.

Fernando Dantas

13 Fevereiro 2019 | 18h28

A ata da reunião de fevereiro do Copom, divulgada ontem(12/2, terça-feira), reforçou a mensagem já contida no comunicado, de que o mercado deve conter o viés baixista para a Selic.

“Eles reforçaram a mensagem de que uma queda de juros é muito improvável”, diz Alexandre Ázara, economista-chefe da Mauá Investimentos. Essa aposta na baixa, segundo o analista, deriva da leitura de parte do mercado de que a atividade recente se revelou mais fraca do que o esperado.

A ata relata que “(os membros do Comitê) debateram evidências de algum arrefecimento da atividade no quarto trimestre de 2018, quando comparado ao terceiro trimestre”. Porém, levando em conta os choques ao longo de 2018 (não especificados, mas a greve dos caminhoneiros pode ser um deles), os membros do comitê concluíram que “a evolução da atividade econômica tem sido consistente com o cenário básico do Copom, de recuperação gradual da economia brasileira”.

Quanto ao risco externo, a ata efetivamente não traz nenhum avanço relevante em relação ao comunicado e a posição do BC é clara. A virada dovish no discurso do Fed (BC americano) atenuou, mas não eliminou o risco de um ambiente internacional mais adverso.

Sobre o front das reformas, a ata também não acrescenta ao comunicado e enfatiza a posição mais conservadora do BC, quando comparada ao otimismo do mercado.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, considera adequada essa postura do Copom.

“A autoridade monetária é mais cautelosa, e não conta com possibilidades, mesmo porque mapeamento político é como nuvem, muda toda hora – acho que eles só vão alterar o fraseado em relação à reforma quando houver etapas concretas de aprovação”, diz o gestor.

A partir da conjugação desses fatores, o Copom definiu o balanço de riscos como ainda assimétrico na direção de mais inflação, mas com menos intensidade do que na reunião anterior.

A reação do mercado a esse posicionamento se dá com diferentes nuances. Rocha, por exemplo, diz que esperava que o balanço fosse trazido para a neutralidade na comunicação da reunião de fevereiro, e ainda acha que isso seja possível nas próximas reuniões.

Ele cita a consensual percepção de melhora externa, núcleos de inflação ainda bastante baixos e a economia mais lenta do que se esperava. Rocha nota que, mesmo que a autoridade monetária tenha interpretado a fraqueza do quarto trimestre como uma oscilação natural num processo de retomada, se o primeiro trimestre também permanecer devagar – ele diz que ainda não há elementos para prever isso, embora o que já foi divulgado de janeiro não tenha sido animador –, a postura do BC pode mudar.

A eventual neutralidade do balanço de riscos significa que o próximo passo da Selic poderia ser para cima ou para baixo, de acordo com desdobramentos de vários fatores ainda difíceis de prever, como a própria reforma da Previdência.

Ázara, por sua vez, considera que “o próximo movimento da Selic vai ser de alta, não de queda”, a não ser que surjam mudanças muito grandes no cenário. Ele diz que o sucesso em aprovar uma reforma da Previdência levará a novas avaliações sobre o juro neutro e o PIB potencial, “e aí, daqui a seis meses, ou um ano, o BC vai avaliar se sobe (a Selic) ou deixa onde está”.

Já o economista Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do BC, escreveu em relatório divulgado hoje sobre a ata que “o BC evitou qualquer sinalização sobre a trajetória das taxas de juros nos próximos meses”. Segundo o analista, a Selic deve ficar em 6,5% pela maior parte deste e do próximo ano, se não for até o fim de 2020, o que só não ocorrerá se houver mudanças significativas no atual cenário econômico.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/2/19, terça-feira.