Nuvens negras sobre Temer

Cientista político Fernando Abrucio acha que cenário menos provável é de sucesso consistente do governo Temer. Ele conversou com a coluna sobre esta e outras possibilidade.

Fernando Dantas

25 de maio de 2016 | 14h54

O escândalo que levou à saída do ministro do Planejamento, Romero Jucá, torna mais improvável o sucesso do governo Temer na principal missão que se auto atribuiu, e de cuja execução depende a popularidade e a legitimidade do novo presidente junto ao eleitorado: aprovar as medidas que teoricamente tirarão o País da atual crise econômica e propiciarão a retomada do crescimento. Esta é, em síntese, a visão do cientista político Fernando Abrucio, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo.

Abrucio lista quatro cenários políticos. O mais improvável de todos é aquele que ele diz ser a aposta de muitos membros do PMDB e também do tucano José Serra, ministro das Relações Exteriores. Seria o caso em que o governo Temer consegue de fato aprovar muitas reformas, que dão novo impulso à economia, e cria um candidato favorito às eleições de 2018. Para o cientista político, Serra, por exemplo, deve imaginar que possa vir a ser este candidato.

Quanto aos outros três cenários, que considera os mais factíveis, Abrucio não faz uma hierarquização de probabilidades. O primeiro é aquele em que o governo Temer consegue fazer algumas poucas reformas, e sobrevive até 2018, sem sucesso notável, mas tampouco caracterizando um fiasco retumbante.

O segundo é o que o cientista político chama de “sarneyzação”. Neste caso, o governo, abalado por sucessivos escândalos e pela balbúrdia política, não faz quase nada, mas o impeachment de Dilma é aprovado no Senado e Temer sobrevive vegetativamente até 2018, inteiramente dominado por um Congresso hostil e como baixíssimos índices de popularidade.

No terceiro dos cenários mais factíveis, finalmente, o governo Temer não resiste aos escândalos e revezes na largada e o Senado inocenta Dilma Rousseff. Neste caso, Abrucio acha que o mais provável é que a presidente afastada tente e consiga convocar novas eleições. Para ele, esta é a grande chance de Dilma sair “por cima” da crise, não só com atestado de inocência, mas também encabeçando a alternativa de novas eleições que teria apoio da maioria da população, inclusive até de antipetistas que foram às ruas para pedir a sua saída.

Por outro lado, se quisesse ficar e governar, ela não teria nenhum apoio parlamentar e mesmo o apoio das ruas seria apenas parcial – Abrucio acha que diante desta alternativa, Dilma provavelmente optaria pela via das novas eleições.

A grande dificuldade do governo Temer, para o cientista político, deriva da sua própria escolha inicial de optar por aquilo que Abrucio chama de “parlamentarismo do presidencialismo”. Aliás, hoje mesmo, Temer declarou se envaidecer de que se diga que está instituindo um semiparlamentarismo no País.

A lógica do novo governo, portanto, seria a de premiar, com ampla participação no governo, os parlamentares que lideraram o movimento pelo impeachment, e confiar a eles a tarefa de passar as fundamentais medidas econômicas no Congresso.

“Mas a lógica do parlamentarismo é justamente o calcanhar de aquiles do governo Temer”, alerta Abrucio.

O problema, na sua visão, é que o fantasma do envolvimento na Lava Jato paira sobre parte considerável desses parlamentares. Daí deriva uma situação política extremamente instável para o governo, em que ministros podem cair a qualquer momento e Temer não consegue construir sua popularidade. Isto, por sua vez, pode afetar negativamente a predisposição de deputados e senadores de apoiar a pauta econômica.

Especialmente até setembro, quando deve ser votada a aprovação do impeachment pelo Senado, Temer e sua base de apoio político vão viver “sob o signo do medo”, para o cientista político.

Além da preocupação dos políticos em não prejudicar seus planos para as eleições municipais, o clima acirrado de confrontação, estimulado pela polarização política do eleitorado, e a ameaça constante de denúncias podem levar os parlamentares a tentar– nas palavras de Abrucio – “sair para São João e só voltar em outubro”. Em outras palavras, fugir dos holofotes, o que não combina com a aprovação de reformas politicamente difíceis e que mexem com o bolso de amplas parcelas da população.

O cientista político cita alguns riscos no caminho de Temer. “Se Eduardo Cunha cair, o que pode acontecer de uma hora para outra, ele não vai cair calado”, diz. Abrucio acrescenta à lista o risco de novas gravações aparecerem, com o mesmo teor da conversa entre Jucá e Sérgio Machado, apontando para um complô pela queda de Dilma para acobertar acusados na Lava-Jato. “O que apareceu ontem, uma grande conspiração com a participação de um dos principais articuladores políticos do Congresso, tornou a história de Delcídio uma Disneylândia – e isto independentemente de se aconteceu ou não, porque em política a palavra vale muito”, ele analisa.

Por outro lado, continua Abrucio, até a votação final do impeachment Temer não tem condições de mudar a lógica parlamentarista da sua gestão, porque ela é fundamental para a sobrevivência do próprio governo.

“O que está em jogo, no fundo, é se é possível no Brasil de hoje ter um governo deste PMDB, todo manchado pela história”, conclui o cientista político. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/5/16, terça-feira.