Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

O ajuste argentino

Há uma ponta de esperança nas chances de sucesso do ajuste argentino, uma economia que embarcou profundamente no populismo. Será que, como no caso brasileiro, a realidade se revelará ainda muito mais difícil do que se julga a priori?

Fernando Dantas

28 de novembro de 2015 | 22h56

Em 10 de dezembro, quinta-feira, Mauricio Macri toma posse como presidente da Argentina. Ele terá à frente de sua nova equipe econômica, como ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay, prestigiado economista e político que já chefiou o BC argentino, e, como ex-executivo do JP Morgan, certamente agrada o mercado financeiro e as correntes ortodoxas e liberais.

Apesar do enorme mergulho do kirchnerismo em políticas econômicas populistas, há algum grau de esperança no ajuste econômico argentino, e nas chances de que não esbarre em obstáculos quase intransponíveis, como no caso brasileiro. Resta ver se o otimismo se provará ilusório, como também foi o caso do Brasil após o anúncio do ortodoxo Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, no final de 2014.

Juan Carlos Barboza, economista do Itaú-Unibanco na Argentina, acha que, depois de um ano de ajuste em 2016, quando o PIB recuará 0,5% (após crescer 0,5% em 2015), a economia do país pode se expandir em até 5% em 2017. Ele vê o PIB potencial argentino em 3%, mas acrescenta que há capacidade ociosa na economia depois de crescer num ritmo médio de 0,3% a 0,5% nos últimos quatro anos.

Evidentemente, chegar a 2017 não será nada fácil. Barboza lista os principais problemas econômicos argentinos: alta inflação, baixo nível de reservas, câmbio muito valorizado, preços de utilidades públicas represados e vedação de acesso aos mercados de capitais.

A curtíssimo prazo, há um problema incômodo. O novo governo quer substituir o atual presidente do BC argentino, Alejandro Vanoli, cujas visões de economia não estão alinhadas com as da equipe de Prat-Gay, por Federico Sturzenegger, conhecido e respeitado economista, com doutorado no MIT. O problema é que Macri não pode simplesmente demitir Vanoli – ou o presidente do BC renuncia, ou há todo um procedimento em comissões do Congresso para removê-lo. Como um dos objetivos da nova equipe no médio prazo é estabelecer uma real independência do BC, é no mínimo embaraçoso ter que afastar o atual presidente.

O objetivo de Sturzenegger é estabelecer rapidamente um programa monetário crível com “guidance” para controlar aos poucos a altíssima inflação argentina. Há no horizonte também a questão de resolver as pendências com os hold-outs da dívida externa renegociada do país, passo importante para reacessar o mercado internacional de capitais.

Um dos problemas mais imediatos, porém, segundo Barboza, é que as reservas líquidas (isto, descontadas das obrigações financeiras) estão próximas de zero. Ele considera provável que o BC desvalorize o peso ainda em dezembro. Não há consenso sobre de quanto seria a desvalorização, e o novo governo ainda está discutindo o assunto internamente, mas o Itaú projeta uma alta para 12 pesos por dólar (de 9,7), o que corresponde a cerca de 20% de perda de valor. “O risco é que seja ainda maior”, ele diz.

A ideia não é a de evoluir rapidamente para um câmbio totalmente flutuante, mas permitir a desvalorização da moeda junto com uma alta de juros, para reconstruir as reservas internacionais no curto prazo. Há cerca de US$ 5 bilhões a US$ 8 bilhões de liquidações de soja retidas pelos exportadores, que poderiam ser estimulados a desovar esses dólares com uma taxa de câmbio mais atrativa. Da mesma forma, espera-se atrair dólares da população entesourados em cofres, e pensa-se numa lei para atrair capitais no exterior, com a devida tributação, nos moldes da repatriação que a equipe econômica brasileira vem tentando.

Com a desvalorização e a correção de preços de serviços públicos, a inflação deve ser alta em 2016, chegando a 33%, segundo Barboza (comparada à 28% em 2015). Ele diz ainda que as estatísticas distorcidas da inflação oficial devem ser corrigidas, e que o ajuste fiscal deve ajudar a segurar a inflação.

É nessa área fiscal que o analista vê uma das vantagens da Argentina em comparação com o caso brasileiro. O Executivo argentino tem discricionariedade para cortar os subsídios (a itens como energia, gás e transportes) que são a principal causa do grande déficit fiscal do país, não precisando, como no caso do Brasil, travar uma extenuante briga com o Congresso para aumentar impostos e cortar gastos.

E, finalmente, a Argentina elegeu um governo que se propôs na campanha a fazer o ajuste da economia, e cuja base política apoia a orientação da nova política econômica – uma situação bem diferente do “estelionato eleitoral” de Dilma Rousseff, que leva aos crônicos problemas entre Levy e o PT (incluindo Lula). É verdade que Macri não tem maioria no Congresso, mas Barboza nota que províncias governadas por peronistas precisarão do apoio do governo federal em tempo de ajustes, e isto pode ajudar a angariar apoio de parte da oposição. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 27/11/15, sexta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: