O ajuste e a popularidade

Correção de rumos na economia vai resistir à popularidade em queda da presidente Dilma?

Fernando Dantas

21 de março de 2015 | 19h34

A queda vertiginosa da popularidade presidencial coloca em questão a viabilidade política do doloroso ajuste econômico em curso. As interações entre economia e política, em que as duas esferas influenciam-se e reforçam-se mutuamente, são extremamente difíceis de prever. Ainda assim, é evidente que uma presidente enfraquecida terá mais dificuldades de impor os inevitáveis custos à população como um todo e a uma série de grupos específicos, que são incontornáveis numa correção de rumos como aquela que a nova equipe econômica vem tentando realizar.

Um atento observador da cena econômica e política brasileira, que já esteve no governo, surpreende-se com a velocidade da queda da popularidade presidencial, uma vez que a deterioração já iniciada no mercado de trabalho caminha num ritmo bem mais lento. Se de fato a perda do prestígio da presidente está ligada à piora já ocorrida nas condições materiais da população, os desdobramentos daqui em diante poderiam ser catastróficos – afinal, a maioria dos analistas considera que os efeitos da recessão na renda e no consumo estão apenas começando.

Mas há outras hipóteses para explicar a dramática perda de popularidade, como lembra a fonte mencionada. Uma delas evidentemente é a percepção sobre o que seria um avanço contínuo da corrupção, com os desdobramentos do escândalo da Petrobrás. Por mais que o governo bata na tecla de que a novidade hoje está no fato de que os escândalos venham a público, e não no seu volume e intensidade, o noticiário constante sobre propinas gigantescas na mais venerada empresa brasileira mina o capital político da presidente e do seu partido.

Outra possibilidade é de que a forte hostilidade da chamada “antiga” classe média à Dilma Rousseff e ao PT esteja finalmente contaminando a “nova” classe média, ou classe C, e os demais segmentos da base da pirâmide social. Este processo, claro, teria sido facilitado pela piora econômica e pela sucessão de escândalos.

Seja qual for a explicação – ou conjunto de explicações – para o naufrágio da popularidade, uma das grandes questões é como o fenômeno interferirá no ajuste econômico em curso. Na parte fiscal, as recentes entrevistas do presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), podem representar algum alívio para o governo.

Cunha sempre foi descrito como um operador político implacável e hostil à Dilma, que automaticamente subiria o preço político do apoio ao ajuste na exata medida do enfraquecimento da presidente. Mas suas recentes declarações, em que deu ênfase à necessidade do ajuste fiscal para evitar a perda do grau de investimento, sugerem que na delicada conjuntura atual ele possa atuar mais como bombeiro do que como incendiário.

Tendo em vista a sua reputação, é óbvio que o governo terá que dar algo em troca do apoio do presidente da Câmara ao ajuste, como por exemplo ficar firmemente do seu lado no desenrolar das consequências da inclusão de Cunha na lista de investigados da operação Lava-Jato.

Uma outra dimensão – talvez a mais difícil e decisiva – da política econômica em confronto com a tempestade política é a atuação do Banco Central. Está nas mãos do BC a calibragem do impacto do ajuste de preços relativos que possivelmente já foi contratado com a disparada do dólar. Diante de uma recessão cujo tamanho e duração ninguém ainda consegue prever direito, e dos seus impactos na popularidade e no poder político do governo, o Comitê de Política Monetária (Copom) pode se ver tentado (ou forçado) a colocar o risco de atividade à frente do risco inflacionário em relação ao cumprimento da meta em 2016. Isto, por sua vez, deixaria o ajuste manco, talvez atenuando os seus efeitos de curto prazo ao custo de postergar o momento da hipotética virada positiva. Neste sentido, a escolha do novo diretor de Política Econômica do BC, que vai substituir Luiz Awazu Pereira da Silva – tido como “pombo” pelo mercado – pode ser um sinal muito importante. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/3/15, quarta-feira.

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