A credibilidade do BC e o PIB

Fernando Dantas

04 de junho de 2014 | 10h35

Um “choque de credibilidade” no Banco Central poderia “economizar” ligeiramente mais que três pontos porcentuais de crescimento do PIB na tarefa de jogar a inflação para o centro da meta, de 4,5%. Em outras palavras, supondo que o Copom decidisse que a inflação deveria retornar ao centro da meta até o fim de 2015 (isto é, a inflação do próximo ano ficaria em 4,5%), o desempenho do PIB seria mais de três pontos porcentuais melhor se o BC recuperasse a credibilidade – por exemplo, se neste caso a economia crescesse 1,5% no próximo ano, a mesma tarefa realizada por um BC sem credibilidade levaria a uma queda de quase 2%.

Não se trata apenas de um palpite, mas sim de uma estimativa econométrica realizada pelo economista Tiago Berriel, professor da PUC-Rio e economista-chefe da Pacífico Gestão de Recursos, também no Rio. O trabalho foi feito por ele e por sua equipe de análise macroeconômica na Pacífico. É claro que exercícios deste tipo não tem a pretensão de prever precisamente o futuro, mas servem para dar uma ideia, e os cálculos de Berriel indicam que a recuperação da credibilidade do BC poderia ser de enorme ajuda para o difícil ajuste da economia brasileira projetado para 2015.

Na verdade, o economista utilizou parâmetros do próprio Banco Central, e buscou reproduzir um modelo econométrico de pequeno porte que está na base de algumas comunicações do BC, como as cartas enviadas ao Ministério da Fazenda quando a inflação superou o teto do limite de tolerância do sistema de metas (em 2001, 2002 e 2003).

O exercício considerou as elasticidades do modelo em relação às expectativas inflacionárias e ao câmbio. A hipótese da recuperação da credibilidade é a de que ela seja reconstituída de forma instantânea, de tal forma que a expectativa mediana de inflação para 2015 fosse no primeiro momento para 4,5%, o centro da meta (hoje ela está em 6%). Neste caso, a previsão é de uma valorização de 15% do câmbio médio até o final de 2015.

Já na hipótese sem recuperação da credibilidade, as expectativas de inflação em 2015 se mantêm em 6%, e o câmbio se desvaloriza em 10%. Nos dois cenários a inflação vai para 4,5% no final do próximo ano, mas a hipótese sem credibilidade implica um aumento da Selic muito maior (não há um cálculo preciso) que provoca a perda de pouco mais de três pontos porcentuais em termos da evolução do PIB – quando se compara ao cenário com credibilidade, no qual a taxa básica sobe muito menos.

Berriel observa que seus resultados provavelmente são conservadores em termos do custo da falta da credibilidade, que poderia até ser maior. A razão é que os impactos do câmbio e das expectativas de inflação no modelo não geram muitas dúvidas, mas o mesmo não pode ser dito sobre impacto da desaceleração na inflação. O conservadorismo do exercício consiste no fato de que o economista e a equipe do Pacífico trabalharam com um parâmetro relativamente forte de impacto da freada da atividade na inflação. Se tivessem considerado que este impacto era menor, a alta de juros e a retração econômica necessárias para recolocar a inflação em 4,5% no cenário sem credibilidade teriam se distanciado ainda mais daquele em que o BC volta a ser crível.

O exercício se baseou no retorno ao centro em 2015 mas, evidentemente, um BC com credibilidade poderia estabelecer um cronograma diferente, talvez um pouco mais alongado, como já foi feito no passado. O fundamental é que as expectativas convergissem para os níveis com os quais o Copom se comprometeria em diferentes datas até o retorno ao centro da meta.

Berriel prefere fazer comentários genéricos sobre a questão de como o BC poderia recuperar de forma muito rápida a sua credibilidade, de forma que houvesse uma volta igualmente veloz das expectativas de inflação para o centro da meta (ou para pontos intermediários com os quais o BC se comprometeria até levar o IPCA aos 4,5%).

É evidente, porém, que um ganho tão rápido de credibilidade só seria obtido com uma mudança profunda da composição do Copom (entrariam pessoas com alta reputação anti-inflacionária) ou com alguma alteração institucional, como a autonomia formal legal. Claro que são possibilidades que se tornam mais relevantes num ano de eleições presidenciais.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/6/14, segunda-feira.

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