O apogeu do Centrão

Grupo de centro-direita dominante no Congresso, e que é desprezado pelos bem pensantes desde a Constituinte, mostrou ontem que pode ditar a agenda econômica e política do País. No entanto, seus defeitos - fisiologismo, paroquialismo e corporativismo - podem pôr a perder os trunfos do Centrão.

Fernando Dantas

11 de julho de 2019 | 19h29

O discurso de Rodrigo Maia e a vitória por 379 votos ontem na primeira votação na Câmara da reforma da Previdência contam uma história sobre a democracia brasileira em tempos recentes que nem sempre é bem compreendida.

Pode-se dizer que foi uma vitória de Maia e do “Centrão”, no sentido amplo do termo. Com a destruição da polaridade PT-PSDB pelo fenômeno Bolsonaro, não é irrazoável pensar que quase todo o Congresso, tirante o PT e seus aliados mais à esquerda – PSOL e PCdoB –, e partidos divididos (como o PDT), são de certa forma “Centrão”.

Não há tantas diferenças hoje em dia entre PSDB, MDB, DEM, PSD, PL etc. O PSL, uma espécie de “new kid on the block”, diferencia-se pela excentricidade e inexperiência de muitos dos seus quadros, recém-entrados na política, mas também não está muito distante da ideologia média do Congresso, que caracteriza o Centrão. O Novo busca ser uma versão mais moderninha de algo que, no fundo, tampouco é tão diferente.

O fato é que a centro-direita domina esmagadoramente o Legislativo brasileiro. Fora do âmbito das eleições presidenciais (e, parcialmente, para o Executivo dos outros níveis da Federação), em que o enorme carisma de personagens como Lula (esquerda) e Bolsonaro (direita ou extrema-direita) são um fator chave, o Centrão e a centro-direita são a cara política do País.

Como cara política do Brasil, o Centrão desfruta dos bônus e sofre dos ônus. No primeiro caso, tendo ampla condição de dominar a agenda de governo passível de ser tocada pelo Legislativo, como vem ocorrendo nos últimos anos. E, como ônus, o fato de ser também “a cara” de tudo o que a sociedade critica no Legislativo: a fisiologia, a venalidade, a corrupção.

Não foi à toa que, em seu discurso de ontem, Maia referiu-se de forma um pouco crítica e irônica à visão pejorativa sempre associada ao Centrão que, apesar disto, foi o grande responsável por ter dado nessa quarta-feira o pontapé inicial numa reforma dura e sempre tida como impopular. O que parece mais uma forma respeitável de fazer política do que a defesa de interesses miúdos ou escusos sempre associada ao Centrão.

Curiosamente, durante o período da Assembleia Constituinte, também havia a expressão “Centrão”, para se referir à massa de deputados vagamente de centro-direita, mas muito mais voltada à pequena política do que à ideologia. Esse grupo tendia a se opor, influenciado por quadros tecnocráticos liberais da ditadura, da transição e do início do governo Sarney, à avalanche da esquerda populista à época.

Na saída da ditadura, entretanto, o prestígio intelectual da esquerda estava em fase de maré alta. O Centrão da Assembleia Constituinte era duramente atacado por quase toda a intelligentsia, e provavelmente foi ainda mais estigmatizado que o Centrão dos nossos dias.

Na verdade, o Centrão do passado e dos dias atuais sempre deu muitos motivos para ser estigmatizado. É, sem sombra de dúvida, um conjunto de parlamentares profundamente envolvido com a parte menos nobre, e várias vezes criminosa, que empesteia a política nacional.

Quando PSDB e PT passaram pelo governo, entretanto, descobriu-se que partidos com teor bem mais alto de “alto clero” do Congresso se comportavam de forma extremamente parecida com a do “baixo clero” que dava a tônica do Centrão.

Na verdade, o fisiologismo e a corrupção não distinguem negativamente o Centrão, mas são uma marca de todos os partidos brasileiros, que tem que ser combatida coletivamente pelas instituições nacionais.

Nesse sentido, Maia tem certa razão ao cobrar que o Centrão não seja tratado de forma mais negativa do que a deferida a uma suposta parcela mais nobre do Congresso Nacional.

Mas o que é, de fato, o Centrão, em termos ideológicos e programáticos?

Desde o governo Temer, está claro que a maior parte do Congresso (mesmo com a forte renovação de 2018), muito bem expressa pelo Centrão, está disposta a apoiar uma agenda econômica ortodoxa e liberal, depois da folia destrutiva da nova matriz econômica.

Isso ficou claro tanto na facilidade com que Temer, depois de ter assumido o documento Ponte para o Futuro como diretriz do seu governo, aprovou o teto dos gastos e várias medidas microeconômicas; como agora, na aprovação da reforma da Previdência no primeiro turno na Câmara.

Na área de costumes e valores, a maior parte do Centrão tende ao conservadorismo, mas não de forma radical como o bolsonarismo. O atual presidente pode conseguir aprovar parte de sua agenda nessa seara se souber negociar com o Centrão e aceitar que este exerça um papel moderador.

O Centrão, como mostram os 379 votos ontem, tem a faca e o queijo para influenciar enormemente a agenda econômica e política do País, mas pode dar também com os burros n’água. O risco reside no que o grupo tem de pior, a fisiologia e o corporativismo.

Destroçar a reforma da Previdência com destaques, por exemplo, vai minar a retomada econômica e levantar a bola para a esquerda, hoje reduzida a pouco mais de 25% do Congresso Nacional, cortar nas próximas eleições. O mesmo ocorrerá se o Centrão sangrar fiscalmente a União com concessões excessivas para os Estados falidos.

A centro-direita hoje domina a política no Brasil, mas pode facilmente pôr tudo a perder.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/7/19, quinta-feira.

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