O arauto do liberalismo

Paulo Guedes tem o dom de vender a mensagem ortodoxa e liberal com entusiasmo e como uma história que as pessoas entendem e podem apoiar. Mas este é um trunfo frágil que o governo Bolsonaro pode estar destruindo.

Fernando Dantas

28 de março de 2019 | 18h04

Quando o chefe da equipe econômica de um governo vai ao Congresso num dia de crise política e nos mercados, o que mais chama atenção, naturalmente, são eventuais deslizes que possam tornar ainda mais complicado o cenário.

E foi isso que ocorreu ontem com o longo depoimento de Paulo Guedes, o ministro da Economia, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Em determinado momento, Guedes foi cortante com a poderosa senadora Kátia Abreu (PDT/GO). Isto obviamente não ajuda numa hora em que o governo precisa desesperadamente cortejar deputados e senadores, mas de forma incongruente Jair Bolsonaro resolveu trocar pesadas farpas com o Rodrigo Maia, presidente da Câmara (hoje, aparentemente, Bolsonaro colocou panos quentes – pelos menos até a última notícia).

Guedes também sinalizou que pode pedir o boné caso perca o apoio não só do Legislativo, mas também do Executivo, para realizar os seus planos liberais para a economia brasileira. Num momento nervoso como o atual, tudo o que os investidores não querem é se preocupar adicionalmente com a possibilidade de uma saída prematura do fiador da racionalidade liberal no governo de Bolsonaro. É verdade que Guedes ressalvou que não seria irresponsável de abandonar o barco na “primeira derrota”, mas ainda assim o mercado dispensaria toda essa conversa sobre uma possível saída antecipada.

No entanto, esses momentos infelizes obscurecem o fato de que Guedes está se aperfeiçoando na sua missão de evangelizador liberal e que, para quem se deu ao trabalho de assistir as várias horas do depoimento, ele inegavelmente fez boa figura junto aos senadores. O que, aliás, foi reconhecido pelo presidente da CAE, senador Omar Aziz (PSD-AM), que comparou favoravelmente o depoimento de Guedes ao de tecnocratas que vieram à CAE no passado – num momento que passou praticamente desapercebido, já que toda a ênfase da cobertura midiática foi ao puxão de orelhas aplicado por Aziz a Guedes no entrevero deste com Kátia Abreu.

Até mesmo o senador Paulo Paim (PT/RGS), conhecido como defensor da generosidade com o dinheiro público quase sempre quando esta se contrapõe a preocupações fiscais, nitidamente acompanhava a fala de Guedes com um ar de interesse e levemente intrigado. Na sua interlocução direta com Guedes durante o depoimento, os dois se trataram de forma bastante cavalheiresca.

A diferença de Guedes em relação a outros defensores da agenda ortodoxa e liberal para a economia brasileira é que o atual ministro da Economia não se prende ao figurino formal e tecnocrático que tanto marcou essa posição no passado.

O ministro tem uma genuína paixão pelo ideário que defende, e consegue costurar os pontos complexos das questões fiscais e econômicas numa narrativa – até empolgante, para os inclinados a concordar com suas ideias – de transformação socioeconômica do Brasil. Essa capacidade de contar uma história que dá sentido às suas bandeiras permite que Guedes escape da posição defensiva tão característica dos tecnocratas liberais em países vulneráveis ao populismo – aquela situação em que a pessoa tem o tempo todo que explicar por que não é malvada por não querer atender a esta ou aquela demanda de uso do dinheiro público.

O país possível – pelo menos para ele – que Guedes vende aos seus ouvintes é aquele em que oportunidades econômicas são abertas para todos, e no qual os “três ou quatro” grupos que dominam tantos setores não só da economia, mas da vida social brasileira como um todo (não necessariamente os mesmos três ou quatro grupos nos diferentes setores), são obrigados a abrir mão da sua situação privilegiada.

No caso da Previdência, a metáfora de Guedes de um avião que ou é consertado ou vai cair, mas não conosco dentro, e sim com nossos filhos e netos, também funciona. O ministro, que é bom orador, tem a capacidade de combinar metáforas, ideias, números e casos numa mensagem não apenas econômica, mas também política, de transformação do País.

Nada disso, entretanto, significa que Guedes seja de fato um “superministro”, uma espécie de trunfo com o qual o governo Bolsonaro caminhará para o sucesso na política econômica a despeito de todos os seus erros de estratégia política. Ao contrário, o depoimento de ontem do ministro da Economia mostrou também que a contrapartida ao seu temperamento mais caloroso e entusiasmado é um ser humano menos frio e mais suscetível a perder a paciência e cometer erros do que um tecnocrata que jogue mecanicamente na defensiva o tempo todo.

Talvez até mais do que um ministro da área econômica tradicional, que usa o protocolo e a formalidade como formas de defesa diante do jogo bruto da política, Guedes necessita de muito amparo político para que seu jogo possa render todo o seu potencial. Dadas as condições certas, ele teria tudo para ser um ativo importantíssimo do governo Bolsonaro. Mas a loucura política do entorno “ideológico” do presidente está fazendo com que as condições se tornem cada vez mais erradas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/3/19, quinta-feira.