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O argumento da demanda

Economia brasileira opera abaixo do potencial há quase cinco anos, segundo indicador do Ibre/FGV. Gilberto Borça Jr faz parte de um grupo de economistas, que inclui Bráulio Borges e Manoel Pires, crítico ao que seria o viés da política econômica refratário à questão da fraqueza prolongada da demanda na economia nacional.

Fernando Dantas

11 de dezembro de 2019 | 12h54

Segundo a série do hiato do produto do Ibre/FGV, baseada numa função de produção, a economia brasileira vem operando abaixo do que poderia, dado os fatores de produção disponíveis, há 19 trimestres – ou desde o primeiro trimestre de 2015.

A recessão de 2014-2016 começou, pela medição do Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace), da FGV, no segundo trimestre de 2014 e terminou no último trimestre de 2016.

Passados 22 trimestres do início da recessão, portanto, a economia ainda opera com grande hiato negativo do produto (a terminologia econômica para a situação de PIB efetivo abaixo do PIB potencial).

Segundo a série com função de produção do Ibre, o hiato estava em -4,5% do PIB no terceiro trimestre de 2019.

O economista Gilberto Borça Jr., mestre pela UFRJ, e que está bastante envolvido no debate sobre a lentíssima recuperação da economia brasileira, recusa-se a naturalizar essa situação de PIB tão aquém do potencial por tão longo tempo.

“É surreal”, ele tenta definir. O economista se espanta que, quase ao fim do quinto ano após o início da recessão, a construção civil ainda esteja 30% abaixo do pico pré-crise.

Borça Jr. faz parte de um grupo de analistas, que inclui Bráulio Borges e Manoel Pires, do Ibre, que considera que a questão da demanda agregada foi subestimada pela política econômica dos últimos anos.

Eles não são, de forma alguma, defensores de impulso fiscal que ignore a dificílima situação das contas públicas no Brasil em termos estruturais, ou de política monetária que ignore o controle da inflação.

Mas Borça Jr. considera que há um componente ideológico na relutância em se adotar políticas de estímulo à demanda mais efetivas ao longo dos últimos anos, e esta relutância seria um importante fator a explicar por que a atual retomada é tão excruciantemente vagarosa.

Para ele, assim como em 2013 e 2014 houve uma cegueira dos policymakers, que continuaram a impulsionar a demanda quando isto claramente não era a medicação adequada para a grande crise econômica que se aproximava, nos últimos anos houve uma tendência oposta, de ignorar o problema da debilidade da demanda.

A sua crítica quanto ao passado é de que o Banco Central deveria ter afrouxado a política monetária bem mais rapidamente para se contrapor aos efeitos contracionistas do grande freio aplicado à política fiscal e parafiscal a partir de 2015, que atingiu em cheio a demanda agregada.

Adicionalmente, Borça Jr. considera que a desalavancagem do BNDES, responsável pelo grosso da contração parafiscal, poderia ter sido feita de forma mais suave.

Ele vê alguns avanços recentes, como a disposição do Banco Central de testar novas baixas recorde da Selic, a liberação de cerca de R$ 40 bilhões do FTGS e a repartição da cessão onerosa com Estados e municípios.

Borça Jr. classifica as medidas do FGTS e da cessão como estímulo à demanda, mas nota que a equipe econômica evita dizer que este é um dos objetivos principais – como se políticas de demanda fossem algo condenável.

E esse viés ideológico continua a preocupar o economista e seus colegas que pensam de forma semelhante. A razão é que, para ele, seria possível fazer mais, como um programa de investimento público de 0,5 porcentual do PIB, que possivelmente demandaria abrir uma cuidadosa e bem precisa exceção no teto de gastos.

Diversos estudos indicam que o multiplicador fiscal dos investimentos públicos é robusto. Isto é, para cada R$ 1 que se emprega nisso, bem mais do que R$ 1 é adicionado à demanda – fora os efeitos mais de longo prazo sobre a produtividade da expansão e melhoria da infraestrutura, por exemplo.

Porém, na visão de Borça Jr., a aversão da equipe econômica a políticas de demanda pode fechar o espaço para esse tipo de medida.

Ele também considera que já é tempo de começar a se pensar mais seriamente nos efeitos deletérios de longo prazo de a economia operar tanto tempo abaixo do potencial, a chamada “histerese”. Desemprego de longo prazo leva à perda de capacitações profissionais e uma economia fraca por tanto tempo estimula a fuga dos cérebros, para dar apenas dois exemplos.

“O diagnóstico de insistir que o problema é basicamente de oferta está errado”, resume Borça Jr. E sua preocupação principal é que um diagnóstico errado impeça um tratamento adequado, que faça a economia brasileira superar um dos piores períodos da sua história.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/12/19, terça-feira.

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