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O argumento da “histerese”

Corrente que defende política de estímulo à demanda no Brasil vê risco de perda permanente (ou muito duradoura) de potencial de crescimento em função dos estragos conjunturais da profunda recessão e lenta recuperação.

Fernando Dantas

15 de outubro de 2019 | 10h19

Um dos argumentos mais relevantes para a ideia de que a política econômica brasileira – monetária e fiscal, esta última dentro dos limites impostos pela forte piora da percepção de solvência pública – deveria ter feito mais para reanimar a economia nos últimos anos atende pelo nome estranho de “histerese”.

O conceito não é difícil de entender. É como um organismo que, enfraquecido por uma sucessão de doenças graves, não volta mais a funcionar de forma tão saudável quanto antes, mesmo depois de curado.

Um economista particularmente preocupado com a histerese na economia brasileira provocada pela agudíssima recessão de 2014 -2016, seguida pela superlenta retomada de 2017-2019, é Bráulio Borges, da LCA e do Ibre/FGV.

Na sua definição, a histerese ocorre quando “o ciclo afeta a tendência”. O exemplo mais conhecido na seara econômica tem a ver com o mercado de trabalho.

Trabalhadores que ficam desempregados por tempo muito longo desaprendem tarefas e rotinas, se desatualizam em relação a novas práticas e têm muita dificuldade de serem tão produtivos quanto antes caso se reempreguem. Nesse caso, a histerese, ao deteriorar capital humano, pode reduzir o potencial de crescimento da economia.

Mas a histerese econômica não se limita ao mercado de trabalho.

Borges vem acompanhando a literatura acadêmica sobre o tema. Trabalho recente do economista Hitoshi Shigeoka, publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER) dos Estados Unidos, mostra, usando dados do Japão, que homens que passaram por condições econômicas muito adversas na infância se tornam mais avessos ao risco quando adultos, num efeito de longo prazo.

Dessa forma, tendem menos a se autoempregar e costuma ficar mais nos empregos (neste caso, também se trata de trabalho, mas a aversão a risco vai além disto).

A disposição a tomar risco, investir e empreender, evidentemente, é um fator estrutural importante numa economia capitalista. O trabalho de Shigeoka, portanto, mostra que conjunturas específicas podem deixar marcas na tendência.

Outro estudo, um “working paper” do Banco para Compensações Internacionais (BIS, na conhecida sigla em inglês), dos economistas Claudio Borio, Phurichai Rungcharoenkikul e Piti Disyatat, formula um modelo teórico que mostra como “uma armadilha de baixas taxas de juros” pode emergir.

É a situação hoje vivida por Japão e Europa e, em grau bem menor, pelos Estados Unidos, em que se convive simultaneamente como inflação muito baixa (ou até deflação), juros muito reduzidos (ou até negativos) e crescimento muito pequeno.

Com algumas hipóteses sobre financiamento da atividade econômica, oferta monetária e empréstimos bancários, o modelo indica que uma política monetária que não se opõe a desequilíbrios financeiros aumenta as chances de estouro de bolhas em sucessivos ciclos, levando a taxas de juros muito baixas (que tipicamente se seguem a estes estouros) de forma duradoura.

Nesse caso, como escrevem os autores, “taxas baixas [de juros] legam taxas baixas”. Também é um caso do ciclo interferindo na tendência. Na visão tradicional, juros baixos estimulam a demanda até o ponto em que um eventual aquecimento excessivo leva os juros a subirem, num padrão cíclico. Nesse modelo, os juros permanecem baixos.

Para Borges, “a discussão de histerese tem tudo a ver com o debate atual no Brasil, principalmente quando a gente vê alguns colegas achando que a única saída para o País é reformar, reformar, reformar e demonizando políticas de demanda de um modo geral”.

Borges, evidentemente, é a favor de reformas – seu ponto é sobre a conveniência de também fazer políticas de demanda.

Para o economista, ignorar o quadro econômico de curto prazo pode inclusive ter o efeito de uma “contrarreforma”, ao reduzir o potencial de crescimento da economia via histerese.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/10/19, sexta-feira.