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O argumento para o BC parar o aperto

Fernando Rocha, da gestora JGP, explica por que, na sua visão, o BC deveria dar um fim ao ciclo de aperto monetário e trazer a inflação para 4,5% em 2017, com meta intermediária em 2016.

Fernando Dantas

02 de junho de 2015 | 23h00

Alexandre Tombini se encontra numa posição ímpar ao participar hoje (2/6/15, terça) e amanhã da sua 36ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) como presidente do Banco Central (BC). Provavelmente pela primeira vez desde que assumiu este cargo, há analistas de formação ortodoxa e liberal que temem que o BC esteja sendo duro demais contra a inflação, e despreocupado de menos com a atividade econômica. Eles não representam o consenso, longe disso, mas o simples fato de que haja economistas de mercado com essa visão é marcante na trajetória do BC comandado por Tombini, tantas vezes criticado por ser “dovish” (palavra derivada de pombo em inglês), isto é, complacente com a inflação.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no Rio, desenvolveu bem o argumento de que, neste momento, o BC de Tombini arrisca-se a ser demasiadamente “hawkish” (palavra derivada de falcão em inglês), isto é, duro com a inflação.

“A minha visão é diferente da maioria: acho que o Copom deveria dar uma parada para olhar, por causa dos sinais alarmantes de fraqueza da economia”, diz Rocha.

Quanto à reunião do Copom esta semana, ele prevê que haverá um aumento de 0,5 ponto porcentual da Selic, para 13,75%. “Já está muito sinalizado, acho que o BC não tem como não aumentar”, comenta. Mas, no comunicado pós-reunião, Rocha preferiria que o Copom sinalizasse o fim do ciclo de aperto monetário.

O gestor está muito impressionado com os números negativos da atividade e do mercado de trabalho. Em termos dessazonalizados (no cálculo feito pela JGP), o Caged de abril registrou perda de 165 mil empregos formais, o que é o pior resultado da série iniciada em 2000.

“É pior do que dezembro de 2008, com perda de 153 mil, o pior mês até então, num momento em que a economia passava pelo cataclismo da grande crise global”, comenta o economista. Em 12 meses, acrescenta, o Caged já apresenta perda de 419 mil empregos formais. Os salários de admissão do Caged estão rodando com alta de aproximadamente 6% em 12 meses – abaixo, portanto, da inflação. A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) também já registra aumento do desemprego.

Em termos da produção industrial de abril divulgada hoje, Rocha observa que os resultados muitos ruins de bens de capital e de bens de consumo duráveis já eram esperados, mas acrescenta que chamou sua atenção a queda de 8,9% dos não duráveis em relação ao mesmo mês de 2014. É um número ligeiramente pior que a maior queda anterior, também em plena crise global, registrada em janeiro de 2009 (8,8%).

“São itens de pequeno tíquete (preço), menos cíclicos e mais resilientes, como roupas, alimentos e remédios – são os últimos bens que o consumidor deixa de comprar, antes vêm carros, eletrodoméstico e imóveis”, diz.

Rocha acha que uma desinflação mais forte só não bateu ainda nos não-duráveis por causa do choque de custos, especialmente ligados ao salto das tarifas de energia, repassado pelos produtores. “Mas passado esse choque de custos, a inflação tende a ceder”.

O economista defende o ponto de vista – que ele mesmo considera “polêmico” – de que o BC deveria estabelecer um roteiro de dois anos para que o IPCA fosse para o centro da meta, de 4,5%. Desta forma, seria fixada uma meta provisória para 2015, que ele acha que deveria ser de 5,5% (as projeções do mercado já estão lá), e os 4,5% ficariam para 2017. As projeções de mercado para 2017 convergiriam dos atuais 4,9% para 4,5% pela clara sinalização do BC de que um ciclo de queda da Selic não seria iniciado antes que isto ocorresse.

A posição de Rocha parte da projeção, que partilha com quase todos no mercado, de que o IPCA não irá para 4,5% em 2016. O sócio da JGP acha que a inflação em 2015 deve chegar perto de 9%, com altas de alimento e possível elevação da gasolina, que já está defasada. “Cortar esse número pela metade em um ano demandaria um sacrifício de produto muito grande, seria algo brutal – aliás, já está sendo”. O economista lembra o componente inercial da inflação, com o índice do ano encerrado servindo para corrigir salário mínimo e uma série de serviços no início do ano subsequente.

“Na história do sistema de metas no Brasil, iniciada em 1999, não se registra um sacrifício de produto para controlar a inflação como o que está em curso agora”.

A questão levantada por Rocha centra-se na questão crucial da credibilidade. É praticamente consenso no mercado que o BC perdeu credibilidade e deixou as expectativas de inflação se desancorarem entre 2011 e 2014. Quase todos concordam também que, recentemente, iniciou-se um grande esforço no BC para recuperar a credibilidade, que é um ingrediente fundamental no sistema de metas de inflação.

Uma corrente expressiva do mercado considera que um recuo em relação ao compromisso da fase recente – centrado em trazer o IPCA para 4,5% em 2014 – poderia ser fatal para o esforço de Tombini e dos outros membros do Copom para ganhar a guerra de credibilidade e das expectativas.

Rocha discorda. Ele nota que esse esquema de metas “intermediárias” já foi usado com sucesso pelo Copom na década passada. Para o economista, com comunicação adequada, o risco de perda de credibilidade com o anúncio de uma trajetória de dois anos para a convergência ao centro seria pequeno.

Sem isso, ele raciocina, ou o Copom busca a ferro e fogo os 4,5%, com consequências potencialmente catastróficas para a economia, ou mantém o discurso, mas não chega lá, o que é ruim para a credibilidade.

“Hoje todo mundo percebeu que é um novo BC, ainda que com a maior parte das mesmas pessoas, e que está reagindo diferente – o problema é que dá a impressão que passou a dar peso quase um para inflação e zero para a atividade, foi de um extremo ao outro, perdeu credibilidade e agora quer reconquistá-la a ferro e fogo”, analisa Rocha, para concluir: “O BC mudou a retórica, está durão, sempre cobramos isso, mas é uma questão de calibragem – nenhum BC de país desenvolvido imporia um sacrifício deste tamanho para sair de quase 9% para 4,5% em um ano”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 2/6/15, terça-feira.

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