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O Banco Central e os alimentos

Do ponto de vista do sistema de metas de inflação, elevação fortíssima do preço da comida não deve ter incomodado muito o BC até agora. Pode ser até que ajude o Copom a não ficar longe demais da meta este ano.

Fernando Dantas

09 de setembro de 2020 | 18h49

A fortíssima alta do preço dos alimentos (e de alguns bens industriais de uso doméstico), que afeta diretamente a população mais pobre, parece ser um problemão para o governo, tanto que o presidente Jair Bolsonaro anda pedindo para os supermercados suprimirem suas margens de lucro e maneirarem nas remarcações.

Do ponto de vista do Banco Central, no entanto, a sensação é de que a inflação da comida não fez ninguém perder o sono, do ponto de vista do regime de metas de inflação (não se está dizendo que, como cidadãos, os dirigentes do BC não se importem com os impactos sociais e políticos da alta dos alimentos).

Há até analistas que consideram que essa elevação de preços pode ajudar a cumprir (ou descumprir por menos) a meta de inflação deste ano – e possivelmente até do próximo. E pode também criar um ambiente mais propício para que o Copom faça algo que já vem tentando há algum tempo: parar de cortar a Selic, que está em 2%, seu recorde histórico de baixa.

A meta de inflação de 2020 é de 4%, com intervalo de tolerância de 2,5% a 5,5%. Ao longo do ano, alguns analistas chegaram a prever IPCA fechado em 2020 perto de 1%, extremamente abaixo do piso do intervalo de tolerância.

A projeção mediana do Focus (sistema do BC de coleta de estimativas do mercado) do IPCA em 2020 subiu desde o início de agosto de um mínimo de 1,62% para 1,78%. E já há quem preveja que, com as pressões inflacionárias em alimentos e alguns produtos industriais, o IPCA fique acima de 2%, quiçá próximo a 2,5%, o piso do intervalo de tolerância.

As razões para a forte alta dos alimentos (a alimentação domiciliar subiu 1,15% no IPCA de agosto, divulgado hoje, e acumula 11,36% em 12 meses) já estão razoavelmente bem mapeadas.

A origem do movimento, afetando as proteínas animais, tem a ver ainda com a gripe suína na China no ano passado, que aumentou a importação de carnes pelo país asiático. A pandemia aparentemente aumentou a demanda por alimentos no Brasil, o que também pode estar ligado ao grande salto da renda das famílias mais pobres com o auxílio emergencial.

Aliás, esse último fator também tem um componente global, pois vários países fizeram gastos fiscais para sustentar a renda das famílias mais vulneráveis na pandemia.

As commodities estão subindo e o dólar se desvalorizando, o que encarece diretamente insumos da cadeia produtiva alimentar, como soja e milho.

No caso de bens duráveis de uso doméstico, como computadores e PCs, pode haver uma combinação de alta do dólar (que reduz a competição dos importados), de aumento de demanda também via benefícios como o auxílio emergencial, e de restrição de oferta com o fechamento de fábricas por algum tempo em função da pandemia.

De forma geral, a desvalorização do câmbio desvia a produção interna para o mercado internacional, e a menor oferta doméstica de determinados produtos pode pressionar os preços.

Mas por que uma corrente de analistas vê com tranquilidade essas disparadas de preços e não teme uma espiral inflacionária?

Um primeiro motivo é até uma preocupação pelo outro lado, da atividade. O auxílio emergencial terminará este ano, e suas “doses mensais” já estão caindo. O excesso de demanda que deriva daí deve ceder aos poucos. O temor é que falte dinheiro para o consumo básico das famílias mais vulneráveis quando o benefício se for de vez.

Adicionalmente, as famílias tendem a manter suas compras de alimentos, bens de primeira necessidade, mesmo com alta de preços. Especialmente entre os mais pobres, isso aperta o orçamento e reduz a demanda por outros bens e serviços, sendo um fator desinflacionário.

No caso dos bens industriais, a oferta está rapidamente se reorganizando, e o pico da demanda associado à quarentena tende a se diluir porque bens duráveis não têm um padrão de consumo contínuo.

E, finalmente, há os serviços, cujos preços permanecem muito deprimidos. No IPCA de agosto, os serviços recuaram por volta de 0,5%, tanto quando se incluem como quando não se incluem as supervoláteis passagens aéreas.

No acumulado de 12 meses até agosto deste ano, os serviços, excluindo passagens aéreas, serviços ligados ao salário mínimo e alimentação fora de casa – segmentos influenciados por dinâmicas próprias –, subiram 1,58%. Nos 12 meses até agosto de 2019, o mesmo indicador estava rodando a 4,03%.

É claro que os serviços foram o segmento mais impactado pela pandemia, o que, em alguns casos, cria problemas até de mensuração dos preços. E, à medida que a vida social vá gradativamente se normalizando, a demanda por serviços deve subir, influenciando os preços.

Na verdade, isso é até desejável, já que o freio do PIB agora é justamente o setor de serviços. A visão benigna é de que a inflação dos serviços deve subir até 2%, 2,5%, numa economia ainda com muita ociosidade de fatores, e que neste nível vai ancorar o IPCA abaixo da meta de inflação de 3,75% em 2021.

A expectativa mediana do Focus para o IPCA em 2021 está parada já há um bom tempo em 3%.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/9/2020, quarta-feira.

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