O Banco Central e os pombos

A saída de Carlos Hamilton e sua substituição no cargo mais importante (depois da presidência) do BC para a política monetária por Luiz Awazu parece ter deixado o Copom mais "dovish", ou "pombo", o que significa menos rígido contra a inflação. O novo nome, Tony Volpon, que vem do mercado, é visto ainda como uma incógnita em termos da dicotomia pombos versus falcões ("hawks").

Fernando Dantas

08 Fevereiro 2015 | 14h17

Para o público mais amplo, as mudanças recém-anunciadas na diretoria do Banco Central (BC) – e, portanto, na composição do Comitê de Política Monetária, Copom – parecem mais uma concessão do governo de esquerda da presidente Dilma Rousseff às vontades do mercado financeiro. Afinal, depois de muito tempo, uma aparente regra implícita foi quebrada: o BC trouxe para a sua cúpula uma profissional do mercado financeiro. Tony Volpon, que ocupará a diretoria de Assuntos Internacionais, chefia a pesquisa de mercados emergentes nas Américas do Nomura em Nova York. A percepção era de que Dilma havia criado um veto a pessoas do mercado no Copom, que já há alguns anos é composto basicamente por profissionais de carreira no próprio BC ou de outras áreas econômicas do governo.

Na verdade, porém, boa parte do mercado financeiro está interpretando as mudanças de ontem de forma bem diferente. “O Copom aparentemente ficou mais ‘dovish’”, comentou um analista esta manhã, usando a palavra em inglês, derivada de ‘pombo’, que internacionalmente designa postura mais brandas no combate à inflação (o oposto de “hawkish”, que vem de ‘falcão’).

O problema é a substituição de Carlos Hamilton Araújo por Luiz Awazu na diretoria de Política Econômica do BC, que é considerado o cargo mais importante do ponto de vista da formulação da política monetária. O diretor de política econômica é considerado o economista-chefe do Banco Central.

Hamilton construiu uma reputação hawkish (relativamente ao contexto dovish da gestão do atual presidente do BC, Alexandre Tombini). Awazu, ao contrário, é visto como especialmente dovish.

Hamilton é percebido como uma voz que manifestou sua dissidência – tanto verbal como em votações do Copom – em diversos momentos do experimento do atual BC com uma política monetária mais suave e com a tentativa de forçar a redução dos juros brasileiros para um patamar médio mais baixo. Em algumas ocasiões, como uma conferência do Itaú em São Paulo em abril de 2013, o posicionamento do diretor foi tão incisivo que chegou a parecer de desafio à orientação de Tombini. Na verdade, porém, foi o prenúncio de mais um ciclo de aperto monetário – Hamilton funcionava como o polo mais conservador do Copom.

Awazu, por outro lado, é visto como um dos mentores intelectuais das reações do BC à deterioração do cenário internacional, com viés baixista das taxas de juros, como no célebre “cavalo-de-pau” da política monetária no final de agosto de 2011.

Volpon, finalmente, é tido por muitos como uma incógnita. Dos seus relatórios do Nomura, não se depreende um posicionamento claramente ‘hawkish’ ou ‘dovish’ em relação às posturas e ações do BC brasileiro nos últimos anos. As suas análises – em que tanto críticas quanto apoio são costumeiramente brandos e com nuances – não apontam inequivocamente numa determinada direção. Certamente, ele foi mais tolerante em relação à política monetária de Tombini do que a ala mais hawkish dos analistas.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 8/2/15, sexta-feira.