O BC e os tropeços na retomada

Peso sobre os ombros do Banco Central aumenta com novas dúvidas sobre a recuperação da economia brasileira.

Fernando Dantas

05 de abril de 2017 | 19h28

Na ida e volta dos sinais de retomada, ingressou-se recentemente em mais uma fase de resfriamento de ânimos, com dados decepcionantes no comércio, nos serviços e na indústria, ainda que os indicadores de confiança continuem em território animador.

Silvia Matos, coordenadora de análise conjuntural do Ibre/FGV, vê riscos de que o crescimento seja mais fraco ainda do que o previsto. O Ibre projeta crescimento de 0,3% no primeiro trimestre, mas se vai para território positivo basicamente pelo desempenho extremamente forte previsto para a agropecuária – os outros componentes do PIB ainda recuam 0,3%.

Para o segundo trimestre, em particular, a previsão é de crescimento de 0,4%. “Uma discussão relevante hoje é sobre o segundo trimestre, e há riscos em relação ao cenário em que todos os setores estariam voltando ao crescimento – os últimos dados não estão dando segurança sobre essa recuperação mais firme e disseminada”, diz a economista.

Silvia, por outro lado, apesar do receio proveniente dos dados quantitativos, observa que os dados qualitativos das sondagens de confiança da FGV mostram melhores em todos os indicadores de situação atual, tanto de empresários quanto de consumidores. No segundo semestre do ano passado, quando houve um “falso alarme” de retomada, ela nota que as expectativas à frente subiram sem que a percepção sobre a situação atual melhorasse. “Agora não, está todo mundo dizendo para a gente que a situação está melhor”, ressalva.

A perspectiva de uma retomada ainda mais fraca do que aquela que vinha sendo antecipada – e que já não era nada empolgante – joga nas costas do Banco Central um peso maior em termos de condução da política de afrouxamento monetário.

Já se discute a possibilidade de corte de 1,25 ponto porcentual (pp) na próxima reunião do Copom, reforçado pela correção das projeções do BC nos cenários de referência e híbrido. Em entrevista no início de março ao colunista Fábio Alves, do Broadcast, Tony Volpon, ex-diretor do BC, chegou a mencionar a possibilidade de um corte de 1,5 pp.

Já um competente economista mainstream, mas que não está no mercado, aventou para a coluna a possibilidade de o BC fazer simplesmente um grande corte, por volta de dois pontos porcentuais, para levar a Selic direto para perto de onde ela deve chegar. Mais do que a medida precisa de quanto se deve cortar para alcançar o final do ciclo, seu comentário refere-se à visão de que não há sentido em ir passo a passo quando há pressa em se chegar.

Todas essas especulações são estimuladas, naturalmente, pela angústia que a saída a conta-gotas de uma das piores recessões da história econômica nacional está alimentando, ao mesmo tempo em que a inflação tem sistematicamente surpreendido positivamente.

Volpon, em conversa com a coluna, reafirmou sua visão favorável à aceleração do ritmo de corte da Selic, já que existe uma janela de oportunidade aberta pelos choques favoráveis, pelo grande hiato do produto e pela situação fiscal que pelo menos parece caminhar na direção do enfrentamento.

O ex-diretor do BC, por outro lado, considera que o BC pode estar temeroso de repetir erros do passado recente, em que se percebeu uma atuação da autoridade monetária menos vigilante do que o necessário na proximidade de eleições para presidente. Assim, cortes muito afoitos agora eventualmente poderiam criar a necessidade de elevar juros em 2018, ano de eleição, o que é muito complicado. Ele nota que, tanto no ciclo eleitoral de 2010 quanto no de 2014, houve a sensação de que o BC foi de alguma forma tolhido na sua ação anti-inflacionária. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/4/17, quarta-feira.