O Bolsa-Família e o voto do pobre

Ao contrário do que parece sugerir recente declaração do ex-presidente Fernando Henrique, voto do pobre vinculado ao Bolsa Família é extremamente racional. Estudo do economista Maurício Canêdo indica por que isso é verdade.

Fernando Dantas

10 de outubro de 2014 | 13h00

A recente declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que os pobres votam majoritariamente no PT não porque sejam pobres mas porque são “menos informados” não é infeliz apenas do ponto de vista estritamente político. É uma ideia que provavelmente também é equivocada.

Em 2006, o economista Maurício Canêdo, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), fez um interessante trabalho sobre o impacto do Bolsa-Família na reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A pesquisa indicou que teve uma influência positiva na votação, mas não decisiva”, ele rememora. Desde então, Canêdo tem acompanhado este tema, inclusive outros trabalhos acadêmicos que, segundo ele, corroboram em linhas gerais os seus achados.

O trabalho coletou diversos tipos de informação em nível municipal: índice de Gini (que mede a distribuição de renda), taxa de analfabetismo, porcentual da população em pobreza, renda per capita, porcentual da renda da população que recebe o Bolsa-Família, crescimento do PIB e outros.

A partir daí, por meio de técnicas estatísticas, Canêdo estimou que 2,7 pontos porcentuais dos 61% dos votos válidos obtidos por Lula no segundo turno de 2006 poderiam ser atribuídos diretamente ao Bolsa-Família. Mais explicitamente, o exercício indicou que, caso não existisse o Bolsa-Família, a votação de Lula seria 2,7 pontos porcentuais inferior.

Evidentemente, o ex-presidente teria sido eleito da mesma forma em 2006 sem o programa de transferência, segundo a estimativa de Canêdo. Mas 2,7 pontos porcentuais podem ser muito relevantes no caso de uma votação de segundo turno mais apertada. Além disso, o exercício só mediu o Bolsa-Família. Se forem levados em conta todos os outros programas voltados para a população mais pobre que surgiram ou foram ampliados – tanto em número de beneficiários como em valor real dos benefícios – durante os governos do PT, pode se estar falando de uma vantagem significativa para as candidaturas da situação.

Mas talvez o aspecto mais interessante do trabalho de Canêdo, que está ligado à recente afirmação de Fernando Henrique, é a comparação entre o efeito do crescimento do PIB e do Bolsa-Família no voto. O pesquisador estimou que o crescimento do PIB só aumentou em 0,3 ponto porcentual a votação de Lula no segundo turno. Nesse exercício, ele compara o crescimento efetivamente ocorrido em cada município com a hipótese de que o PIB tivesse crescimento nulo em todos eles.

Pensando de forma mais focada nos municípios mais pobres cuja população tem uma proporção grande de beneficiários do Bolsa-Família, a lógica que o pesquisador intui nos seus resultados é que estas pessoas têm noção de que a sua falta de capacitação e as áreas pouco dinâmicas em que habitam são empecilhos a que o crescimento econômico tenha um impacto muito forte em suas vidas – principalmente quando comparado com o efeito direto das transferências governamentais.

No seu trabalho, Canêdo escreveu que “esses resultados parecem indicar que os eleitores mais pobres estão tão alijados dos ganhos advindos do crescimento econômico que simplesmente não levaram essa variável em conta quando decidiram seu voto nas eleições de 2006”.

Uma questão que surge no trabalho do pesquisador é por que o impacto do Bolsa-Família não é ainda maior. Ele vê forte evidência em outros estudos de que, nos municípios mais pobres, mais dependentes do Estado, há uma tendência de voto em favor do governo, seja qual for. Assim, o Bolsa-Família seria apenas um fator adicional num contexto em que o voto já tende a ser governista.

De qualquer forma, o pobre age de forma racional ao vincular seu voto à transferência e ao governo ao qual associa os programas sociais. É claro que provavelmente não corresponde à verdade a ameaça que pairaria sobre as transferências caso a oposição voltasse ao poder, como por vezes insinua a estratégia eleitoral do PT. Mas é extremamente sensata a conduta humana de não trocar o certo pelo duvidoso, por menor que seja a dúvida.

Fernando Henrique pode até ter uma certa razão no sentido de que, se soubessem com 100% de certeza que o ímpeto social dos governos petistas seria mantido sob Aécio, os mais pobres não votariam tão maciçamente no PT. Mas isto é algo sobre que nem mesmo contingentes mais ricos e esclarecidos da população exibem conhecimento detalhado. Compete ao PSDB martelar a mensagem do seu compromisso social incessantemente para tentar criar essa certeza no eleitorado. E, se chegar ao poder, dar uma atenção muito especial à política social, para ter certeza de que o estigma de partido dos ricos seja eliminado.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 9/10/14, quinta-feira.

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