O Brasil e o Brexit

Reação ao Brexit do Brasil e de outros emergentes foi melhor do que antecipado. Ajudou o fato de que o voto pela saída do Reino Unido da União Europeia adia e suaviza ainda mais o ciclo de aperto de juros nos Estados Unidos.

Fernando Dantas

29 Junho 2016 | 10h49

A bolsa caía mais que 3% no momento em que esta coluna foi escrita, mas a valorização do dólar era relativamente leve e os efeitos na curva de juros discretos – o Brexit nem de longe causou nos mercados do Brasil e de outros países de perfil semelhante, neste ‘day-after’, o abalo que alguns temiam.

Essa reação ilustra o quão dominante na economia mundial é o quadro de crescimento amorfo, baixa inflação (ou deflação) e alta liquidez nos Estados Unidos e em boa parte do mundo desenvolvido. Qualquer ameaça adicional à estabilidade e ao crescimento das nações ricas rapidamente se converte em alongamento e suavização das expectativas de aperto monetário nos Estados Unidos, e também sinal de mais políticas acomodatícias por parte de outros bancos centrais dominantes, como o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão.

O economista José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, nota que a probabilidade (extraída de ativos financeiros) de que os Fed Funds, juros básicos dos Estados Unidos, aumentem na reunião de dezembro em relação à atual faixa de 0,25% a 0,5% saltou de 50%, registrada ontem, para 78% no final da manhã de hoje. Em outras palavras, o mercado reagiu ao Brexit com a aposta de que o Fed fará o que for preciso para contrabalançar quaisquer efeitos depressivos na economia global da saída do Reino Unido da União Europeia (EU).

Como alguns analistas têm frisado, o Brexit é mais o início do que o fim de um processo. Calcula-se que pelo menos dois anos serão necessários para renegociar a teia de acordos e compromissos que vincula o Reino Unido à UE nas condições atuais. Há interrogações sobre se Escócia e Irlanda do Norte, onde o Brexit perdeu, tentarão um caminho independente do Reino Unido.

Sobretudo, é preciso esperar algum tempo para perceber se o Brexit foi apenas um divórcio amigável, pelo qual o Reino Unido apenas estabelecerá uma nova forma de convivência com a UE, o que já existe no caso de outros países europeus fora do bloco, como Suíça, Noruega e Islândia; ou se o resultado do referendo de ontem é apenas o primeiro capítulo de um processo de desintegração geopolítica e ascensão do populismo de direita no mundo rico, que na pior das hipóteses poderia caminhar na direção da eleição de presidentes como Marine Le Pen na França e Donald Trump nos Estados Unidos.

Há certo consenso entre os analistas de que, num cenário global fragilizado, o Brexit é um evento que contribui para desacelerar a economia global, ainda que a intensidade deste efeito seja uma dúvida e não se possa descartar que seja pequeno – afinal, o Reino Unido não é hoje uma economia cuja dimensão seja extremamente significativa no contexto global. Muitos preveem piora da econômica britânica e até recessão, mas é cedo para saber.

Seja qual for o resultado, porém, ele certamente estará ligado à dúvida mencionada acima sobre o significado do Brexit. No caso de representar apenas a escolha do Reino Unido de conviver de forma independente com o bloco, é bem possível que os efeitos na economia global sejam passageiros. Se for a emergência no mundo rico de tempos de em que populismo, protecionismo e xenofobia assumem as rédeas e em que alianças tradicionais são rompidas, o impacto pode ser maior e de mais longo prazo.

Alexandre Póvoa, sócio-fundador da gestora Canepa, nota que um enfraquecimento mais forte da economia global poderia ter um efeito baixista sobre as commodities e afetar moedas de emergentes exportadores de matérias-primas, como o Brasil.

Por outro lado, também neste caso, é de se imaginar que o Fed, BC americano, reagiria à fraqueza adicional da economia com ainda mais adiamento e suavização do ciclo de normalização monetária. Em última instância, na visão de Senna, o dólar poderia subir em relação às outras moedas num primeiro momento, em função da alta do risco global, mas a ação da política monetária acabaria revertendo este movimento e criando ainda mais liquidez. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/6/16, sexta-feira.