O câmbio e a alta do juro

Diante da alta dos juros futuros de curto prazo, na esteira da depreciação cambial, BC pode ter que reavaliar ciclo de elevação da Selic, a taxa básica.

Fernando Dantas

12 de março de 2015 | 00h10

O Banco Central (BC) terá um tempo razoável para refletir sobre como reagir à alta recente do dólar e ao pinote nos juros futuros de curto prazo que sinaliza (na terça, 12/3/15) alta em torno de 0,75 ponto porcentual na próxima reunião do Copom e outras elevações que levariam a taxa básica acima de 14% em meados do ano. Na verdade, entre o próximo passo da política monetária e o difícil momento atual se interpõem uma ata do Copom (da reunião de 3 e 4 de março, a ser divulgada nesta quinta-feira); o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março, que sai no final deste mês; e cerca de 50 dias, já que o próximo encontro é em 28 e 29 de abril.

É tempo suficiente para que muita coisa mude, não podendo se descartar a priori, inclusive, que o mercado se acalme e o dólar recue dos níveis atingidos nos últimos dias. De qualquer forma, é bastante possível também que o BC se veja, no momento de tomar a próxima decisão sobre a taxa básica, num cenário muito distinto daquele da última alta divulgada, referente à reunião de 20 e 21 de janeiro, quando o dólar projetado para o horizonte relevante da política monetária no cenário de referência era de R$ 2,65.

Alexandre Ázara, economista-chefe da Modal Asset Management, nota que a ata da reunião de janeiro projetou ainda para 2015 uma variação de 27,6% da energia, levando os administrados para 9,3%. “A energia vai ser pelo menos 45%, o que por si só já levaria os administrados para 11,5%”, ele diz.

Segundo Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA, “a rodada adicional de depreciação cambial não estava na conta do BC”. Ele nota que autoridade monetária já sabe que 2015 é um ano perdido – o analista da LCA acha que o IPCA pode ficar próximo a 8% este ano –, e está mirando em 2016. Ainda assim, há o problema da inércia de um ano para o outro, e o Copom pode considerar que tem de evitar que o IPCA descole-se demais do teto da meta.

“Projeto que o BC eleve a Selic em 0,5 (ponto porcentual) na próxima reunião e faça mais duas de 0,25, mas não se pode descartar 0,75 (em abril)”, diz Borges.

Ele nota que o mercado ficará ainda mais atento do que de costume à divulgação da ata da reunião de março e principalmente ao RTI, já que a primeira ainda ficará presa aos parâmetros que vigoravam durante a última reunião do Copom. É fundamental entender como o BC lê o momento atual e a brusca virada no cenário.

Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, acha que naturalmente a forte depreciação do real, se mostrar-se duradoura, amplia e eleva o atual ciclo de aperto, mas ele ainda não vê a necessidade de “um choque de juros”, com o BC administrando a alta da Selic com passos maiores ou bem maiores que o cardápio habitual de elevações de 0,5 e 0,25 ponto porcentual.

Brisola observa que a economia já está em desaceleração e que a política monetária já teve algum impacto relevante. Além disso, apesar do fortíssimo ruído político, ele vê sinais relativamente claros – inclusive no discurso da presidente Dilma Rousseff no domingo – de que o governo está apoiando de forma firme o ajuste fiscal, o que deve ajudar na recuperação da credibilidade. No entanto, ressalva, se o câmbio continuar sua escalada no ritmo dos últimos dias até a próxima reunião do Copom, tudo pode mudar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/3/15, terça-feira.

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