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O centro político em disputa

Vitória de Biden deu gás a forças centristas no mundo todo, mas no Brasil a busca de uma frente ampla contra Bolsonaro está causando mais desavenças do que união. Conversei com Carlos Pereira e Cláudio Couto, cientistas políticos.

Fernando Dantas

11 de novembro de 2020 | 09h48

A vitória de Joe Biden sobre Donald Trump deu gás para as aspirações centristas ao poder no mundo todo, e no Brasil não poderia ser diferente.

Porém, no terreno minado da política brasileira, parece que as conversas sobre frente ampla contra o populismo de extrema-direita de Bolsonaro têm o condão de semear ainda mais as desavenças entre as diversas forças que se opõem ao atual presidente.

O apresentador Luciano Huck, cogitado como candidato de centro em 2022, encontrou-se com Sergio Moro, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, o que despertou ira entre outros personagens associados a possíveis configurações centristas (pela direita e pela esquerda), como Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e Flavio Dino, governador do Maranhão.

Moro seria muito de direita, ou até de extrema-direita, e não teria lugar em qualquer coalizão pelo centro contra Bolsonaro.

O tema é explosivo e divide até os cientistas políticos. Mas dois pesquisadores da área ouvidos pela coluna, Carlos Pereira (Ebape/FGV) e Cláudio Couto (EAESP/FGV), concordam em pelo menos dois pontos.

O primeiro é que uma candidatura de centro no Brasil se caracterizaria por combinar compromisso com a inclusão social e responsabilidade macroeconômica e fiscal. O segundo é que há espaço para o sucesso centrista em 2022, e a eleição de Biden nos Estados Unidos pode ser um sinal disso.

As concordâncias entre Pereira e Couto param por aqui.

Em relação a Moro, o cientista político da Ebape considera que o ex-juiz, apesar de seus erros e de ter participado no governo de Bolsonaro, pode, sim, integrar uma chapa centrista, sendo um político de centro-direita.

Pereira vê a luta contra a corrupção, a marca da vida pública de Moro, como “uma política inclusiva, que não pode ser considerada de direita”. Segundo o pesquisador, a corrupção desvia recursos, que poderiam ser aplicados em política social, para o bolso do grupo minoritário com acesso às negociatas.

Ele inclusive vê uma dificuldade da esquerda de separar o público de privado e uma tendência a se permitir formas dúbias de atuação na esfera pública em nome da luta alegadamente assimétrica contra a força do capital.

Já Couto vê como um “deboche” a tentativa de incorporar Moro ao centro político (os pesquisadores foram entrevistados separadamente para esta coluna).

“Moro é um radical de direita, tanto que ficou muito confortável com Bolsonaro a ponto de abandonar a carreira de juiz”, diz o cientista político da EAESP.

Pereira, por outro lado pensa que Moro readquiriu respeito do eleitorado de centro-direita ao sair do governo Bolsonaro denunciando a tentativa de manipulação da Polícia Federal pelo presidente para interesses pessoais, no caso proteger o filho Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio, no caso da “rachadinha”.

No entanto, para Couto, o perfil extremista de Moro não se resume a ter participado do governo Moro. Para o pesquisador, isso inclui também “a concepção de direito punitivista, que dá de ombros para o devido processo legal”.

Ele acrescenta que o ex-ministro da Justiça fez “vista grossa” para a política de liberação do uso de armas de Bolsonaro, e enviou ao Congresso o pacote de segurança pública com o excludente de ilicitude, “licença de matar” para a polícia.

Para além da figura de Moro, Carlos Pereira, da Ebape, enxerga na pandemia um evento que reforçou o centro em relação aos polos políticos, embora a polarização, naturalmente, não tenha acabado – haja vista a forte votação de Trump.

Segundo o pesquisador, a polarização cresceu nas últimas duas décadas, mas sobretudo na mais recente. O movimento ocorre pela construção de identidades muito fortes ligadas a um grupo. Este dá a sensação de pertencimento a seus integrantes, que reforçam mutuamente suas convicções e criam barreiras a qualquer coisa que ameace as crenças dominantes do grupo.

A pandemia, porém, colocou em risco a vida e, em muitos casos, levou à morte de parentes, amigos e pessoas queridas, o que enfraqueceu a coesão dos grupos identitários.

Pesquisa recente realizada por Pereira (com Amanda Medeiros, FGV-Rio, e Frederico Bertholini, UNB) mostra que brasileiros identificados com centro-direita e direita se afastaram de Bolsonaro e passaram a rejeitá-lo, e esse movimento foi tão mais forte quanto mais provável foi que tivessem pessoas próximas que adoeceram seriamente ou faleceram em consequência do coronavírus.

Assim, não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil, o centro saiu fortalecido. Pereira vê como bastante competitiva uma eventual articulação, com vistas a 2002, que envolva personalidades como Huck, Moro e João Doria, governador de São Paulo.

Ele acha que é esse potencial eleitoral que provocou a reação negativa à esquerda e à direita ao encontro Huck-Moro. No caso de Rodrigo Maia, Pereira vê um erro de avaliação que aposta que pode vir a ser corrigido.

“O Rodrigo derrapou, se ele pensar melhor vai ver que está incluído nesse jogo”.

Couto, por seu lado, embora veja potencial para o centro, tem uma visão bem mais cética do que a de Pereira.

Ele nota que, de fato, “a vitória de Biden foi comemorada do PT a colunistas da direita civilizada na imprensa”. Por outro lado, na sua visão, isso se deu muito mais pela derrota de Trump do que pelo candidato democrata em si.

No sistema bipartidário dos Estados Unidos, prossegue Couto, é natural que todas as forças se agreguem em torno do candidato que vai para a disputa com um político extremista e divisivo como Trump.

Já no multipartidarismo brasileiro, esse movimento é muito mais difícil de acontecer, a não ser no espaço exíguo da disputa do segundo turno em 2022. Antes disso, Couto considera que o espaço para a ação conjunta de diferentes forças políticas é no sentido “defensivo, para que nós cheguemos a 2022 preservando a democracia”, que ele vê atacada por Bolsonaro.

Por outro lado, Couto pensa que há espaço para a construção de boas candidaturas próximas ao centro em 2022, por personalidades como Huck ou Flávio Dino, neste caso pela centro-esquerda.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/11/2020, terça-feira.

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