Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

O círculo vicioso

Romper o círculo vicioso entre economia e política está além da capacidade e dos objetivos do atual governo, segundo Armando Castelar, do Ibre.

Fernando Dantas

25 de novembro de 2015 | 13h32

Uma importante questão que paira hoje sobre a economia brasileira é se a recente trégua do mercado financeiro, aliada a pequenos avanços na restauração da governabilidade da presidente Dilma Rousseff, será suficiente para romper o círculo vicioso da política e da economia que vem tragando a economia brasileira para um poço que parece não ter fundo. Este foi o tema central do seminário Perspectivas da Economia Brasileira – 2016, realizado na segunda-feira (23/11/15) pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio.

O grande obstáculo é que as projeções de atividade e inflação para 2016 são tão ruins que ameaçam romper qualquer dique provisório que a melhor articulação política do governo consiga construir para refrear a deterioração econômica.

Um exemplo emblemático deste problema é o fato de que o cientista político Octavio Amorim, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), após ter apresentado um detalhado cardápio de cenários durante o seminário, indicou que iria revê-los. A razão alegada pelo acadêmico é justamente a virulência da crise econômica projetada durante o seminário, que torna menos prováveis cenários com qualquer grau de estabilidade política, mesmo que precário.

O Ibre projeta queda do PIB de 3,3% em 2015 e de 3% em 2016, e a inflação, depois de raspar 10% este ano, deve ficar em 7,1% no próximo.

Um gestor presente ao seminário comentou que o Banco Central parece estar fazendo uma ofensiva de comunicação informal no sentido de que pode haver boas notícias no front inflacionário em 2016. Elas viriam dos preços dos serviços, afetados pela queda do mercado de trabalho, e dos administrados, com a possibilidade de uma “bandeira verde” nas contas de energia. Mas o gestor é cético em relação tanto aos serviços quanto aos administrados, e nota que as expectativas do IPCA para 2016 e 2017 vêm piorando desde o final de outubro no relatório Focus do BC.

Na conclusão do encontro, o economista Armando Castelar, do Ibre, previu que o tipo de círculo vicioso entre economia e política que caracterizou 2015 deve se repetir em 2016.

Ele ressalvou que o ajuste brasileiro promovido pelos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, tem aspectos notáveis, como a forte correção dos preços administrados e do câmbio, que deve fazer o déficit em conta corrente cair de US$ 104 bilhões para US$ 40 bilhões entre 2014 e 2016.

O problema, porém, é que o problema fiscal não foi solucionado, o que deve produzir déficits primários na casa de 1% do PIB ou pouco mais em 2015 e 2016, levando a um ritmo galopante de crescimento da dívida bruta.

Castelar notou que, ao contrário de crises fiscais do passado recente (como 1998-99 e 2002/2003), a deterioração não foi enfrentada com ações decisivas do governo, mas sim com “conflito e paralisia política”. Isto, por sua vez, levou a níveis inéditos de queda de confiança de empresários e consumidores, provocando contração do investimento do crédito e do consumo e, num segundo momento, recuo do emprego e da renda e aumento da informalidade.

Todos esses fatores realimentam a crise política, ao minar a popularidade do governo; e a crise fiscal, ao afetar negativamente às diversas bases de arrecadação tributária e previdenciária federal. E assim, fecha-se o círculo vicioso. Rompê-lo, para Castelar, exige uma agenda e um ímpeto político que passam longe dos objetivos e da capacidade do atual governo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/11/2015, terça-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: