O cobertor curto dos emergentes

Em artigo, economista-chefe do FMI explica como os efeitos econômicos da Covid podem ser piores nos emergentes (fora China) do que nos países ricos, e uma das principais causas é o ritmo da vacinação. Mas propostas do FMI parecem pouco viáveis no mundo real.

Fernando Dantas

28 de janeiro de 2021 | 10h57

Mais de 150 países deverão ter em 2021 renda per capita inferior ao nível de 2019, segundo Gita Gopinath, economista-chefe do FMI. Em 2022, 110 países ainda estarão abaixo de 2019 na renda per capita.

A perda acumulada de PIB global no quinquênio 2020-2025 deve atingir US$ 22 trilhões. A causa, claro, é a pandemia da Covid-19. E quase 90 milhões de pessoas devem cair para a extrema pobreza em 2020 e 2021, revertendo a tendência de redução dos extremamente pobres do mundo nas últimas duas décadas.

Em artigo no Blog do FMI, Gopinath chama a atenção para o caráter desigual da retomada econômica num mundo ainda em luta contra o coronavírus.

O grande destaque em termos de recuperação foi a China, que já voltou, no quarto trimestre de 2020, ao nível de PIB anterior ao da pandemia. No mundo rico, para (não) variar, os Estados Unidos estão se recuperando mais rápido que a Europa, e devem retornar ao nível pré-coronavírus este ano.

Em boa parte do mundo emergente (excluindo China, claro), entretanto, o coronavírus vai cobrar um preço muito elevado em termos de desenvolvimento. Segundo Gopinath, 50% das economias emergentes e em desenvolvimento que estavam convergindo em termos de renda per capita para o nível dos países avançados devem regredir de 2020 a 2022.

A recuperação mais rápida das economias avançadas deve-se em parte, segundo Gopinath, ao fato de que lançaram pacotes fiscais bem maiores de apoio a famílias, empregos e empresas, e estão conseguindo acesso mais rápido às vacinas contra a Covid-19.

A desigualdade promovida pelo coronavírus ocorre também dentro dos países, já que as perdas de renda foram maiores para os menos educados, jovens, mulheres e trabalhadores informais.

Segundo os cálculos do FMI, há um potencial de reduzir as perdas de PIB global entre 2020 e 2025 em US$ 9 trilhões, se o mundo conseguir terminar mais rápido a crise sanitária da Covid-19. Desse total, US$ 4 trilhões iriam para os países ricos, e o resto para o mundo emergente.

A receita do Fundo para que isso aconteça inclui, inicialmente, uma ação coletiva da comunidade internacional para democratizar o acesso a vacinas e tratamento entre os países. Em segundo, manter os programas de ajudas a famílias e empresas onde a segunda onda está acontecendo. No caso de países sem espaço fiscal, como o Brasil, focar recursos em saúde e transferências para pobres.

O FMI também recomenda a manutenção das políticas monetárias expansionistas nos principais países e medidas especiais de ajuda para os países mais pobres.

O problema, porém, é que as recomendações do FMI parecem mais uma carta de bons princípios e propósitos do que um plano de ação coletiva que efetivamente possa mobilizar os principais países do mundo.

Numa entrevista concedida hoje (27/1) a Reuters, Bill Gates, talvez o bilionário que mais seriamente tenha se dedicado a ajudar os pobres do mundo nas últimas décadas, disse que os países mais pobres terão, na melhor das hipóteses, uma defasagem na vacinação, em relação aos ricos, de seis a oito meses.

A razão para isso, disse Gates, é que os políticos naturalmente estão se empenhando para conseguir o máximo de vacinas, o mais rápido possível, para seus próprios países.

O fundador da Microsoft, diga-se de passagem, está cooperando como pode, com a Fundação Bill e Melinda Gates tendo posto US$ 1,75 bilhão à disposição para ações globais contra a Covid-19, incluindo vacinação.

Mas o problema global de alocação de vacinas é tão grave que mesmo entre os ricos há conflito. Um dos mais intensos no momento ocorre entre a União Europeia e o Reino Unido, que brigam para ver quem vai ficar com quanto de vacinas fabricadas na Bélgica, tanto da Pfizer-BioNTech como da AstraZeneca-Oxford.

Por enquanto, não há sinais de solução mais efetiva para o problema da desigualdade entre países na capacidade de vacinar suas populações. E muitos dos emergentes mais impactados pela segunda onda, como o Brasil, têm problemas muito sérios com o “espaço fiscal” para prorrogar programas de apoio a famílias e empresas.

O FMI fala em focar na saúde e nos pobres, mas num país, como o Brasil, em que mais de 90% do orçamento é gasto com despesas obrigatórias de crescimento vegetativo, realocar recursos é algo entre o dificílimo e o impossível. A “solução” é aumentar gastos sem espaço fiscal, o que cria instabilidade macroeconômica e se reflete negativamente num segundo momento na atividade, no emprego e na renda.

O cobertor tornou-se extremamente curto para os países emergentes com fragilidades econômicas abalroados pela segunda onda da Covid-19.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 27/1/2021, quarta-feira.