O complexo equilíbrio chinês

O economista Livio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, mostra como muitas vertentes econômicas, políticas e sociais - e conjunturais e estruturais - convergem na China para tornar difícil a missão do governo de pilotar uma desaceleração suave. Ainda assim, ele descarta desfechos catastróficos nos seus dois cenários: o básico (70% de chances) e um mais pessimista (30%).

Fernando Dantas

23 de janeiro de 2019 | 10h29

As preocupações sobre a economia chinesa ganharam força nos últimos dias, com temores de uma desaceleração mais brusca do gigante asiático. O crescimento chinês em 2018, de 6,6%, foi o mais fraco desde 1991, e a expansão do PIB em 2017 foi revisada de 6,9% para 6,8%.

O economista Livio Ribeiro, especialista em China do Ibre/FGV, observa que várias questões se combinam na interpretação do atual momento chinês.

O primeiro, bem conhecido, é a chamada transição do modelo, de uma economia puxada pelo setor secundário (indústria e construção civil), pelo investimento e pelo setor externo, na direção de mais serviços e mais consumo.

A segunda vertente é a necessidade de limpar os balanços financeiros de corporações e bancos depois dos excessos cometidos em sucessivas ondas de política contracíclica em 2009/2010, 2013 e 2015.

O terceiro fator é a disposição do governo e dos policymakers chineses de evitarem a chamada “armadilha de renda média”, pela qual os países conseguem sair da pobreza para níveis médios de renda, mas empacam antes de chegar aos padrões de vida material do mundo rico. Especificamente, o setor de serviços para o qual se quer transitar tem menor capacidade de sustentar taxas de crescimento aceleradas do que a indústria, o que faz da transição um exercício de equilíbrio complexo.

Há ainda a guerra comercial com os Estados Unidos, uma variável que o governo chinês não controla. E, finalmente, existe a perene preocupação do governo chinês com a estabilidade social, que costuma sofrer abalos quando o cinto aperta para a população do país. Com a desaceleração, o emprego dá sinais de estar sendo afetado. Ribeiro nota que houve perda recente de cerca de 8 milhões de postos de trabalho na indústria, ou cerca de 11% do total.

Segundo o economista, a transição de modelo está ocorrendo, como fica claro em alguns números. Em 2018, o setor secundário foi responsável por 40,7% do PIB, e o terciário (serviços) por 52,2%. O consumo das famílias e do governo contribuiu com 76% do crescimento de 2018, a maior parcela desde pelo menos 2018. Mas Ribeiro nota que, apesar de a foto ser boa em 2018, a transição andou de lado desde 2016.

O governo está tomando desde o ano passado medidas de estímulo fiscal (redução de impostos e aumento de subsídios), parafiscal (linhas especiais principalmente para pequenas e médias empresas) e de expansão de crédito bancário, porém sem reeditar os grandes impulsos contracíclicos de 2010, 2013 e 2015.

No último trimestre de 2018, registrou-se desaceleração importante na indústria, e pequena aceleração da construção civil, possivelmente em função dos estímulos. No terciário, o mesmo período apresentou aceleração nos segmentos financeiro e imobiliário, e perda de dinamismo em transporte e comércio. A conjuntura de curto prazo em termos de indústria e varejo, ligada à demanda doméstica, dá sinais de fraqueza. Porém, segundo Ribeiro, ainda há espaço para o governo trabalhar com estímulos fiscais e monetários.

Em termos de projeções, o cenário mais provável para o analista, com 70% de probabilidade, é aquele em que a guerra comercial se atenua ou se resolve, e os efeitos defasados dos estímulos levam a um crescimento de 6,2% ou 6,3% do PIB chinês em 2019.

Mas Ribeiro também vê chances menores, mas não irrelevantes, de um cenário com um pouco mais de estresse. O governo perde a mão nos finos equilíbrios que vêm tentando fazer, entre estimular para evitar uma desaceleração mais brusca e evitar endividamento adicional excessivo; e entre manter a transição de modelo e aceitar alguma desaceleração sem comprometer a estabilidade social e política.

O cenário, pior, portanto, em que provavelmente a guerra comercial também não dá trégua, é aquele em que todas essas pressões se intensificam, e o crescimento cai para a faixa de 6% ou até um pouco abaixo. Segundo Ribeiro, é uma projeção de pouso “menos suave”, mas ainda longe dos cenários mais catastróficos dos pessimistas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/1/2019, terça-feira.

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