O Copom e o “balanço de riscos”

Copom introduz expressão no Comunicado que mantém alguma margem de manobra.

Fernando Dantas

04 de agosto de 2015 | 23h27

A expressão “o atual balanço de riscos” introduzida no comunicado do Copom (divulgado em 29/7/15, quarta-feira) deu margem a diferentes interpretações. Em comum, elas indicam que o BC, apesar de ter sinalizado o final do ciclo de aperto monetário no comunicado, reservou-se algum espaço de manobra, inclusive em relação à comunicação que antecedeu a reunião terminada ontem.

A frase completa, que inicia o comunicado, é: “Avaliando o cenário macroeconômico, as perspectivas para a inflação e o atual balanço de riscos, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., para 14,25% a.a., sem viés”.

Um experiente analista de política monetária considera que a inclusão no comunicado da expressão “e o atual balanço de riscos”, na comparação com os comunicados anteriores, é uma indicação de que o Banco Central (BC) não está preso à sinalização de que só interromperia o ciclo de alta quando a projeção de IPCA de 2016 chegasse a 4,5% no seu modelo econométrico.

O diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon, já havia dito em teleconferência há um mês que o Copom não estava “mecanicamente focado em colocar a inflação em 4,5% em 2016 nas suas projeções oficiais” e que o objetivo era de que a meta estivesse “satisfatoriamente assegurada”.

Para o analista mencionado, “a projeção central é tão relevante quanto a distribuição de probabilidades”. Assim, caso o modelo apontasse um IPCA de 4,6% em 2016, mas com probabilidade maior de ficar abaixo da meta do que mais próximo de 5%, isto já configuraria um balanço de riscos compatível com a interrupção do ciclo de alta.

Alguns observadores consideram que o Banco Central atou as próprias mãos ao escrever no comunicado que “a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta no final de 2016”.

Por outro lado, como notou o consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, em comentário divulgado ontem após a decisão do Copom, a expressão “o atual balanço de riscos” abre uma porta tanto para eventuais altas adicionais como até para reduções antes do final do ano.

Ainda assim, Schwartsman nota que, se o Copom se deu ao trabalho de sinalizar de forma tão explícita que a manutenção da Selic em 14,25% é o seu plano principal, já se decidiu em princípio a não mexer na Selic na próxima reunião e provavelmente gostaria de manter a taxa básica inalterada até o fim do ano. O consultor considera que essa postura é o fim “não apenas do ciclo de alta, mas de qualquer chance de ver a inflação em 4,5% no próximo ano”.

De qualquer forma, ao incluir o “balanço de riscos” como condicionante dos próximos passos, o BC indica que ficará atento aos efeitos em sentido contrário de variáveis que vêm surpreendendo pela intensidade dos seus movimentos: a deterioração da atividade e do mercado de trabalho, de um lado, e a desvalorização do câmbio, do outro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 30/7/15, quinta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: